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quinta-feira, 19 de julho de 2018

SOBRE AMOR, VIDA E MORTE

Quando o amor (em todas as suas vertentes) é verdadeiro, não existem obstáculos que o detenha. AMOR, simplesmente AMOR, sem conceitos, preconceitos, ideologias e outras firulas.
O tempo é implacável. No final, o que sobra é a certeza da morte.
Morrer na plenitude de lembranças boas por se ter tido coragem de ser, fazer e viver tudo o que a vida pediu, é uma aleluia.
Morrer na resignação de arrependimentos de tudo o que se deixou de ser, fazer e viver, por medo, covardia ou preguiça, é um martírio.


Éd Brambilla. Crônica. SOBRE AMOR, VIDA E MORTE. 10.03.2018.

DAS CONSTRUÇÕES IDEOLÓGICAS

Construções ideológicas sempre funcionaram como cabrestos para os carrascos sociais que, numa ou noutra esfera do pensamento, de alguma forma (seja através da ciência, da filosofia, da teologia, da filologia etc.), encontraram os panoramas perfeitos para manipular o pensamento da grande massa. Quando temos a oportunidade de entender e aprendemos a ler nas entrelinhas das intenções por trás do "pensamento tirano", passamos a ser protagonistas de nossos pensamentos; passamos a pensar através de nós mesmos. Claro que precisamos (SEMPRE) do "outro" como termômetro de nossas próprias construções e ressignificações. Quando chegamos ao ponto de compreender que as construções também se fazem em nós e passamos a aplicá-las no coletivo, respeitando (SEMPRE) o que está fora de nós (mas que ao mesmo tempo também ESTÁ, de certo modo, em NÓS), encontramos aí uma possível liberdade. E nossos pensamentos (meu e dos outros) fluem com mais leveza e responsabilidade.



Éd Brambilla. DAS CONSTRUÇÕES IDEOLÓGICAS. 01.06.2018.

REFLEXÃO ANTES DE TUDO

As analogias metafóricas de Friedrich Nietzsche são realmente fantásticas. Um grande pássaro, visto na imensidão do céu, torna-se minúsculo aos olhos daqueles que o vislumbram do chão. E o mesmo vale para o pássaro que enxerga tudo muito pequeno aquilo que está em terra firme. Aprender a voar está ao alcance de todos. Enxergar "pequeno", seja quem está no alto ou quem está no baixo, é uma questão muito ligada à educação, caráter, hombridade, sensibilidade... Os que estão no "alto" têm o dever moral de posicionar-se - através dos conhecimentos adquiridos - no lugar dos que estão no "baixo". E isto é possível através do nivelamento, onde quem "aprendeu mais" deve deixar de lado os seus saberes "técnicos-científicos-filosóficos" para mergulhar no espaço do lago do outro, que aprendeu menos ou nem aprendera esses saberes. Infelizmente, o "diabo" (força de expressão), que se manifesta de diversas formas, como dinheiro, poder, ganância, soberba, presunção etc., é que a maioria das pessoas (tanto as do "alto" quanto as do "baixo") não possui ou se nega a adquirir imunidade contra os "venenos sociológicos". Antídotos existem: "empatia", "resiliência", "compaixão", "solidariedade", "amorosidade", entre outros. Aos que "se vêem" no "alto" e compreenderam efetivamente este texto, expliquem-no aos que "se vêem no "baixo"; todavia, é preciso muita cautela, pois, muitos, principalmente os que enriqueceram independentemente de nível de letramento, acreditam que o "ter" e o "poder" suplantam todo o resto. Reflexão antes de tudo.

Éd Brambilla. REFLEXÃO ANTES DE TUDO. 03/06/2017.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

"A GENTE" QUE RENEGA "AS GENTES"

Falo sobre "a gente" que tem uma "opinião inquestionável" para tudo e, no entanto, tem dificuldade de se levantar do lugar até mesmo para fugir de um incêndio para salvar a própria vida.

Falo "da gente" que quer ditar o que é moral, amoral e imoral a partir das próprias "verdades" e não é capaz de compreender nem mesmo um ínfimo pedido de socorro de quem está debaixo do mesmo teto.

É "uma gente" que diz as frases 'Eu te amo!' e 'Eu não te amo!' como se entre elas não houvesse nenhuma dissonância.

"Essa gente" pensa ser mais gente porque ACREDITA estar minuciosamente engajada num bom e velho padrão social – estritamente convencionado.

Em "Assim Falava Zaratustra", de Friedrich Nietzsche, na crônica "Ler e Escrever", tem uma curta e contundente observação que expressa, sem o menor pudor, o espírito assassino que "essa gente", de tão cega pela hipocrisia, nem desconfia que tem: "[...] Não é com ira, mas com riso que se mata. [...]

E assim tem feito "essa gente" de espírito aprisionado. Gente que tem matado com um riso superficial, ao mesmo tempo aniquilador, quando constata que um semelhante seu não se assemelha, não se encaixa e não aceita completamente o bom e "irretocável" padrão social. "Essa gente" aniquila "gentes" usando uma ou outra crença como escudo. "Gente" que esconde "gentes" porque a "moral" deve ser preservada. "Gente" banhada em preconceito, talhada pela intolerância e ignorância.

Quão pobre é "essa gente"! "Uma gente" que não se dá conta de que carece de autoestima. Que, por mal conseguir sustentar a si mesma, abomina e foge "das gentes" de espírito livre.

Para "essa gente" falta empatia. Sem empatia, não há evolução. Sem evolução, "essa gente" dificilmente descobrirá as próprias falhas. E se descobrir, não saberá lidar com elas. Não sabendo lidar com elas, as negará. Negando-as, sempre buscará uma forma de culpar o outro. A culpa no outro é um antídoto para "essa gente". Suas falhas deixam de existir. A culpa é "das gentes". E "essa gente", enquanto negligenciar a existência mentirosa a qual está submetida, enquanto não permitir-se evoluir, jamais conhecerá o sabor, a leveza e a hombridade "das gentes" cujas essências flutuam. Flutuam porque aprenderam a mergulhar em si mesmas. Lutaram contra seus medos, conflitos e angústias; venceram. E "essa gente" nunca entenderá o real significado de verdadeiramente SER.

Há "gente" que nunca mudará de opinião e há "gente" que ainda tem a chance de mudar de opinião através do amor incondicional. Para esta última "gente", luz.

A "essa gente" desejo que ao menos sintam desejo de se libertar.

Éd Brambilla. Crônica. "A GENTE" QUE RENEGA "AS GENTES". 24/12/2017.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

OS INSTINTOS DE UMA FÊMEA E AS QUATRO ESTAÇÕES

RECOMENDAÇÃO EXPRESSA: este texto é para ser lido com os instintos; abstenha-se dos filtros ideológicos. Boa leitura! 

PRIMAVERA:

De repente a menina se olhou no espelho: sentiu-se tomada de uma mulherice inesperada. Encheu-se de reminiscências; ela entendeu que era uma contemplação diferente das anteriores: havia um brilho lânguido no olhar; um cheiro vago de calidez escapou-lhe pelos poros; e o ar morno da primavera era como uma promessa de desabrochamento sutil. A menina então se deu conta: “Estou pronta!” – pensou. É a convocação de sua natureza para o ato de renovação da vida; o verdadeiro exercício do amor incondicional. E a mulherzinha passou então a cantarolar suas querências. Seu olhar, agora, imbuído de um interesse perene, vasculhava os arredores à procura da metade que lhe fora reservada. O tempo passou e ela sentiu a temperatura da pele mais vibrante; estava mais sucumbida à entrega. Entrou o verão.

VERÃO:

A mulherzinha tornou-se mulher, cheia de uma plumagem nova e bela. Ela passou a sentir os sobressaltos dos desejos a sacudir-lhes as entranhas. É tempo de amar, de copular, de renovar. Nunca os verbos foram tão urgentes na existência da nova mulher – também ela agora toda urgente. E veio então a entrega. Foi assim: em uma noite de atmosfera abafada, de um calor que não se apaga com um refresco de água gelada; o corpo nu sobre um lençol úmido de secreções libidinosas; concentrada em si mesma, mole, receptiva, ardente. Um gemido ecoou grave e entrecortado. Sentiu-se completa. Deixou-se largada por um tempo; um sorriso anacrônico se fez em seu rosto. Adormeceu nos braços de seu homem. E novamente o tempo passou e a mulher sentiu um vento fresco a soprar-lhe as têmporas. Era o outono se aproximando.

OUTONO:

A mulher, copulada, sentia um desassossego na alma e não entendia seus novos desejos, tão esquisitos e ao mesmo tempo tão cheios de promessas de sabores nunca antes experimentados. Acordou com vontade de comer perninhas de rã com doce de leite. Estava fecundada. Passou a mão pelo ventre e balbuciou uma prece: “Oh, Deus Misericordioso! Benditos sejam os teus ouvidos e benditas sejam as tuas mãos santas! O milagre agora está em mim, na pureza do meu ventre sagrado. Amém!” E adormeceu - com as mãos em concha no abdômen - estirada em uma rede, grávida de um fruto novo. Teria agora um amor para todo o sempre. O tempo correu. A mulher, em seu sagrado lar, sentada ao pé da pequena escada que dá para o jardim, perdia-se em lembranças doces. Um frio gelado arrepiou-lhes os pelos dos braços. Chegou o inverno.

INVERNO:

A velha mulher, agora, acariciava delicadamente a pele do rosto, e, através de sua beleza madura, recordava-se dum tempo florido, seguido de um tempo que ardia em chamas nas entranhas de sua alma. Pensou na chegada do filho - num outono remoto - e o quanto deleitara-se com as suas necessidades de mãe. Pensava também nos netos. O seu abençoado fruto também produzira outros novos frutos. Sentia-se feliz e realizada. Olhou para o céu e viu poucas estrelas – já era noitinha. Fixou os olhos na estrela mais brilhante e agradeceu ao Deus a vida serena que até ali tivera. Pouco tempo depois, sentiu o corpo desfalecer sobre o assoalho de madeira da varanda. Seus olhos semicerraram-se instintivamente: uma linda adivinhação de partida. Um suspiro curto e profundo fora a medida certa para a suave separação entre corpo e espírito da abençoada mamãezinha. Partiu: sem dor; sem mágoas. Levou apenas a essência que lhe era própria, E deixou para os seus frutos joias raríssimas lapidadas em forma de amor maternal. Fica em paz, oh, doce mulher!

Éd Brambilla. Crônica. OS INSTINTOS DE UMA FÊMEA E AS QUATRO ESTAÇÕES. 18/10/2014.

AUTORRETRATO

Quando descobri que estava "doente de amor" e não "amando", restaram-me duas opções um tanto óbvias: ser corroído por uma pseudo-esperança ou mergulhar no fundo de minha essência. Com muito esforço e tempo consegui direcionar meu olhar para a segunda opção; resgatei a mim mesmo, e, como um valente salva-vidas, com um braço enlacei meu pescoço e com o outro impulsionei corpo e Espírito para a superfície. Como no Mito da Caverna, de Platão, quase enlouqueci com a forte luz do dia; quase retornei várias vezes para os recônditos da alma. Ah! mas que força medonha se criou em mim com o passar dos anos! Foi como se todos os sentimentos bons e também os disfarçados de bons - de tanto se chocarem - tivessem criado uma nova potência em meu ser, cujo nome não se pode batizar. Tudo o que se transforma dentro de cada pessoa é inominável, pois se trata de uma redenção de um deus-não-sei-o-quê-interior e não-universal. É de cada um e para cada um essa tal potência; é como identidade digital, não existe uma que se iguale à outra. E foi a partir dessa consciência que meus olhos voltaram a sentir prazer com os raios do sol; que a minha Vontade, pregada com não sei quantos pregos de desesperança, de tanto esperar um socorro externo, rasgou-se toda para libertar-se, e, ainda que destroçada e sangrando nas arestas, arrastou-se heroicamente até encontrar um pequeno arbusto, que, apesar de sua pequena copa, sabia amar com veemência. E foi com esse sopro de amor que minha Vontade, aos poucos, conseguiu se regenerar, ainda que a parca sombra do valente arbusto tivesse de ser dividida com tudo o que estava doente em mim. E não eram poucos os sentimentos corrompidos que precisavam de um pouco de refresco, de um remendo aqui e outro ali. Enquanto meu Espírito ressonava, Vontade e Potência-Minha regeneraram todos os cortes e recortes de minha Essência e me devolveram o Todo que eu tinha abandonado por puro medo de duelar com a Vida. Foi então que, rindo de aleluia, tive um insight: a Vida jamais quis duelar comigo. Como é que se pode duelar com o que nos permite respirar?! "Insano” – refleti, "Eu ESTOU insano!..." E me pus a rir até doer-me o estômago. E comigo se puseram a rir todos os meus sentimentos, os meus medos, o Espírito... Até minha Vontade mijou-se toda de tanto gargalhar. Tudo girava num redemoinho de expurgação. Tudo o que era ruim, o redemoinho expurgava para uma espécie de labirinto onde aprisiona-se tudo aquilo que faz a vida sangrar em dor. Quando o redemoinho se dissipou, o que ficou foi o cerne puro do que me move. A Vida não havia me abandonado nem um segundo sequer. Ela sempre esteve dentro de mim. Eu é que, "doente de amor", passei a enxergá-la de fora para dentro. Eu estava literalmente fora de mim, e, ingenuamente, desafiava a minha própria vida. Ah! que alívio foi quando meu Espirito – adormecido – abriu os olhos num puro bocejo de uma pessoa que acorda e diz "Estou pronta de novo!" e percebeu que voltara a olhar de dentro para fora. "Estou salvo" – pensei. E tanto os olhos físicos quanto os metafísicos deixaram mais de não sei quantas mil lágrimas escorrem pela face e, da face, por todo o corpo – o físico e o metafísico. "EU CONSEGUI! NÓS CONSEGUIMOS!" – gritava a boca calada a tanto tempo. "Agora SOU novamente; Vontade-Minha está aqui dentro do meu peito, até então ressequido, fazendo o sangue jorrar incessantemente do coração para o meu TODO." – sussurrei para dentro de mim mais lentamente, mais convicto de que eu tinha finalmente me livrado da sobrevida e o que me movia novamente era a minha boa e velha companheira VIDA. Eu já podia caminhar conforme minha Vontade novamente
LIBERDADE é o nome do que me habita agora, e, dentro de mim, sou totalmente livre para ser o que a minha imaginação me permite ser.
Bem-vindas ao seu verdadeiro lar, Vontade e Força minhas!

Éd Brambilla. CRÔNICA. Ou seria uma Carta (?). AUTORRETRATO. 10.01.2016.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

"SÓ-XIXI"



Desesperado por um banheiro, entrei no primeiro boteco que vi.
-O banheiro é somente para clientes, moço!... Só posso entregar a chave se você consumir - foi logo dizendo o balconista do recinto.
-Tá,tá, tá!!! Me dá logo a chave e põe qualquer coisa aí para mim - respondi contorcendo tudo o que fica da cintura para baixo.
-Uma "coca"? - quis saber o rapaz.
-É... Pode ser... A chave, "pelamordedeus"!!
Enquanto eu me aliviava, reparei na mensagem (curta e bem grossa) abaixo do espelho:
"SÓ-XIXI"
Ufa, ainda bem que era "SÓ-XIXI", mesmo! Olhei por todos os cantos e NADA de papel higiênico. Papel-toalha para secar as mãos? Para quê?! Sequei as mãos nas laterais das calças.
Devolvi a chave para o balconista, paguei pela "coca" e agradeci pelo banheiro. Quando eu estava saindo do boteco, o cara gritou:
-Hei!!! Você esqueceu de beber a "coca"!!!
-Se você quiser, pode beber por mim... Eu não bebo refrigerante nenhum - respondi.
Segui meu rumo (aliviado) e o moço ficou feliz pela "coca-presente".


Éd Brambilla. Crônica. "SÓ-XIXI". 13/12/2016.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

TEMPO DE CARACOL



E novamente já é tempo de "caracol"... Ontem, chegando da UNIP, tinha um serzinho "caracoleando" no "hall" do meu apartamento. Nos apresentamos:
-Boa-noite, senhor caracol! Eu sou o Éd. Prazer em conhecê-lo!
-Boa-noite, humano! Eu sou o Caracoaldo e vê se não me amola, pô!
-Desculpa, Caracoaldo! "Rola" uma “selfie” pelo menos?
-Uma só e vaza daqui! Tenho mais o que fazer!
Eita, até caracol anda mal-humorado!


Éd Brambilla. Crônica. TEMPO DE CARACOL. 24/11/2016.



AH, DONA MERCEDES!



Minha mãe estava com um problema: o pé esquerdo inchado e dolorido. SÓ O ESQUERDO!
-Vem cá, Dona Mercedes, vou dar um jeito nisso!
Algum tempo depois...
-Prontinho, aparentemente está bem melhor. Ainda dói?
-Ai, Divaldo, ficou uma beleza!
-Que ótimo, mãe! Agora eu quero beber um café.
-Mas e o outro pé?!
-Mas não era só o esquerdo que estava ruim, mãe?!
-Era... Só que agora o outro começou a doer, também. Que esquisito, né?!
Olhei pra ela com cara de quem diz: “Hum, sei bem!" E ela olhando pra mim com uma cara do tipo "safadinha nível máximo".
-Vamos ao outro pé, então! (mãe pode tudo).
Mais algum tempo depois...
-Pronto, Dona Mercedes! Os dois pés ficaram ótimos agora!
-Era bom fazê tudo, né? Mas já tá bom; senão você vai chegá tarde na casa da Lúcia. (referindo-se a Luciana, minha irmã).
-Concordo, mãe! Você sempre está com a razão. Preciso mesmo ir.
E a cara do tipo "safadinha nível máximo" lá... Só na expectativa.
-A senhora vai em casa, que lá eu tenho maca… Aí eu faço tudo, tá bom?
Ela: CARA DO TIPO "ME DEI BEM!"

Éd Brambilla. Crônica. AH, DONA MERCEDES!. 27/11/2016.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

A NATUREZA E A (DES) CONSTRUÇÃO DO SUJEITO


Desde que o mundo é mundo, o bicho-homem, para se construir como sujeito e materializar suas ideologias, depende, incontestavelmente, da natureza que o cerca. E, para atingir seus objetivos, desconstrói e agride indiscriminadamente essa mesma fonte que o alimenta. A necessidade do Homem em agregar valores subjetivos e coletivos a sua existência vai de encontro à necessidade da Natureza de existir em sua plenitude e direito; não se construiu ainda um meio termo para que Homem e Natureza coexistam de maneira sobretudo mutualista; o parasitismo ainda é a mola-mestra unilateral – por parte do Homem – dessa relação. Nesse jogo de vaidades para impor seu poder de espécie privilegiada, o Homem caminha produzindo informação, tecnologia e valores numa eterna ressignificação de seu egocentrismo. No entanto, e apesar de todo o seu notável esforço, o Homem, quanto mais apregoa a sua evolução e magnificência existencial, não se dá conta de sua miserabilidade solitária intrincada na alma: o Homem é solitário em si mesmo porque enxerga a transformação em seu exterior e não se dá conta de que a transformação é em si mesmo, em sua essência. No final de tudo, depois de toda a experimentação de prazer, não lhe resta nada mais a não ser questionar-se: Por quê? Para quê?

Para arrematar este texto, tomo emprestada uma visão – ainda tão moderna e pertinente ao tema aqui tratado – do filósofo alemão, Friedrich Wilhelm Nietzsche, que escreveu em sua obra, "Assim falava Zaratustra":

“(...) O homem e a sociedade vivem na hipocrisia, à sombra de valores que não correspondem às aspirações do ser humano, porquanto marcados e conduzidos por um conjunto de leis, costumes e tradições que se já se comprovou, além de desgastadas pelo tempo e pela maldade dos homens, aleatório e inútil (...)”.


Éd Brambilla. CRÔNICA SOCIAL. A NATUREZA E A (DES) CONSTRUÇÃO DO SUJEITO. 14/11/2015.

Imagem: retirada da web.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

O QUE TE FAZ FELIZ?

Muitos generalizam uma condição onde os humanos só conseguem ser realmente felizes se possuírem bens materiais e realizarem desejos que requer dinheiro. Tem muita gente espalhada pelo mundo afora que usufrui da verdadeira felicidade com o pouco que consegue conquistar - não por falta de garra para alcançar coisas maiores, mas devido a tantos porquês que o mundo impõem como barreiras. Algumas pessoas conseguem administrar bem suas condições de vida (sejam as que têm pouco ou as que têm muito) e outras, ao contrário, procuram argumentos, para o que consideram (no caso, o "não ter") uma frustração, para amenizar a falta de sensibilidade para compreender a vida, que se explica sob uma ótica que inclui mundo exterior e mundo interior. Nem sempre o que se busca está do lado de fora. Um olhar mais sensível ao nosso mundo interior, muitas vezes, traz revelações que fazem a vida dar um giro (positivo) certeiro no que realmente nos faz felizes. E quando tanta gente não consegue, mesmo com muito esforço, enxergar o que precisa para ser feliz, projeta no outro, inclusive nos animais (que são genuinamente felizes porque não necessitam "ter", mas apenas "viver" das ofertas da natureza), a sua frustração, e, de uma maneira pseudo-positiva, reverencia a felicidade que vislumbra no outro, quando, na verdade, o sentimento é de cobiça. Neste ponto, sim, concordo que os animais são verdadeiramente mais elevados que nós, seres humanos. Eu sei disso porque aprendo muito com Lilica, uma "yorkshire".

Éd Brambilla. Crônica. O QUE TE FAZ FELIZ? . 03/07/2016.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

O CARACOL


Depois de mais uma noite de aulas, chegando da faculdade, deparei-me com um caracol na entrada do "hall" do meu prédio.
Fiz um trocadilho com ele, cantarolando:
-Debaixo dos caracóis dos teus cabelos...
Na sequência, me pus a rir e disse - com zombaria - olhando bem para os seus olhinhos "caracolados":

-Caracol não têm cabelos!

Fotografei o bichinho e me despedi:

-Tchau, Sr. Caracol! Espero que encontre uma linda Sra. "Caracola" na calada da noite.


PS* Tinha uma "caracoata" de caracóis; um atrás do outro. Mas esse me chamou a atenção por ser muito grande.


Éd Brambilla. Crônica. O CARACOL. 25/02/2016.

domingo, 31 de janeiro de 2016

A "EXIBIDINHA"

Foi quando olhei através da janela da sala, cuja vista dá para um prédio abandonado, sem vida, esquecido pelo bicho-homem, como tantas ruínas existentes que guardam uma promessa e uma esperança; baixei a cabeça e olhei para o espaço que separa, talvez por uns cinco metros de largura, o meu prédio, que pulsa a vida com todas as suas veias e artérias (umas saudáveis e outras nem tanto), do prédio "prometido", e vi, solitária, em meio ao espaço seco e improvável para a gênese, uma pequenina flor, cuja espécie eu desconheço (lembra uma margarida em miniatura).
A pequena guerreira estava rente à parede do meu lar, voltada para a minha janela e com as pétalas eriçadas para o alto, bem na minha direção. Lembrei-me da rosa manhosa do Pequeno Príncipe, de Saint-Exupéry. "Uma flor para mim" - pensei. É a vida provando que o impossível é apenas uma questão de obstinação e uma real vontade de querer "ser". Desci as escadas de acesso ao meu apartamento, ainda meio zonzo com a readaptação diária à vida toda vez que acordo do mundo dos sonhos, que, para mim, se fazem belos todas as noites e me levam aonde a mente pode alcançar, e, de cócoras, busquei pacientemente um ângulo perfeito para eternizar o meu raro presente.
Ofereço a minha rosinha, que batizei com o nome de Exibidinha, para todos os meus amigos, sejam eles reais ou virtuais, porque a amizade é um estado de fé que independe da matéria física.

Vida longa a todos, AMIGOS!

Éd Brambilla. CRÔNICA. “A Exibidinha”. 31/01/2016. 7:39 a.m.

sábado, 30 de janeiro de 2016

DEIXEM OS MARIMBONDOS EM PAZ!

Foi assim: tive de parar o que eu estava fazendo para entrar numa briga de ordem ambiental.
Eita, Diabos!
Do lado de baixo do meu prédio, tem outro prédio – ainda em construção: sem janelas; portas; reboco; etc.. Moro no primeiro andar e os cômodos do apartamento que ficam de frente ao meu apartamento foram habitados por diversos cachos de marimbondos, que não atrapalham a vida de ninguém. As minhas janelas – principalmente a da sala – ficam sempre abertas. Os marimbondos entram, dão um rolê pela sala e depois voltam para as suas casas. Basta não se meter com eles e tudo fica em perfeita sintonia. Acontece que a vizinha do andar térreo, que mora ao lado do apartamento que fica embaixo do meu – que reclama até de respirar –, infernizou a síndica por conta dos bichinhos.
Resultado: de repente uma fumaceira danada começou a entrar na minha sala ao mesmo tempo em que eu escutava barulho de pancadas (nos marimbondos) vindas de um dos apartamentos desabitados – a não ser pelos marimbondos. Corri até à janela da minha sala. Dois rapazes movimentavam-se desesperadamente portando tochas de fogo e pedaços de pau. E era justamente no apartamento cuja sala fica na mira da minha. PRONTO! Um furdúncio estava formado!
Ao avistar-me, um dos rapazes, todo esbaforido, gritou:
-Moço, fecha as suas janelas!
-Não fecho nada! Por que vocês estão despejando os marimbondos? – inquiri.
-Ordem da síndica! A vizinha de baixo reclamou deles – respondeu o Serial Killer de marimbondos.
-E o que foi que os marimbondos fizeram para ela? – quis saber.
Nisso, entrou a vizinha na conversa (olhando de baixo para cima em direção a minha janela):
-Um deles entrou no meu apartamento e me picou!
-Picou?! Por quê?!
-Porque eu bati nele com uma vassoura.
-Ele só se defendeu, ora! Se o tivesse ignorado, ele teria ido embora tranquilamente, como faz aqui em minha casa.
-Pois então pega todos os marimbondos e leva para a sua casa! – replicou a inimiga da natureza.
-Por que não muda você do apartamento? – trepliquei.
-Vai cuidar da sua vida! – respondeu a mal educada.
-É o que estou fazendo, dona! Os marimbondos fazem parte da minha vida e não posso admitir essa matança sem propósito!
Ela, a vizinha, fitando os assassinos de marimbondos e meneando a cabeça negativamente, disse:
-Vou te contar, viu! É cada doido que me aparece!
E antes que eu pudesse responder, ela bateu a janela com toda a força e se enfiou no mundinho dela (sem marimbondos, sem borboletas, sem morceguinhos - porque sempre vem um morceguinho lá do prédio me visitar -, enfim, sem natureza) e deve ter ido fazer as "coisinhas" dela em seu mundinho "engessado".
O que aconteceu em seguida?
Um enxame de marimbondos se pôs a sobrevoar por todos os lados dos dois prédios. Uma gritaria danada formou-se por conta de outros moradores que, curiosos, meteram as suas caras nas janelas de suas salas.
Eu, tranquilamente, me pus a escrever esta crônica enquanto vários marimbondos sobrevoavam desesperados rente ao teto da minha sala. Nunca fui picado por nenhum deles. Nem desta vez.
Um pouco antes do desastre ecológico, ainda tentei negociar com um dos assassinos:
-Moço, o correto é você remover os cachos e levá-los para a mata (referindo-me a uma pequena mata ao lado do prédio abandonado).
No entanto, destruir e matar dá menos trabalho.
Não pude salvar os marimbondos, mas desejei que vários deles (os sobrevivente) conseguissem entrar por alguma fresta de uma das janelas do apartamento da vizinha e picassem muito a "periquita" dela enquanto ela estivesse dormindo.
Azar o dela!
Espero que os marimbondos não morram envenenados com o fel da mulher.


Éd Brambilla. CRÔNICA. Deixem os marimbondos em paz! 20.01.2016.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

AUTORRETRATO

Quando descobri que estava "doente de amor" e não "amando", restaram-me duas opções um tanto óbvias: SER CORROÍDO POR UMA PSEUDO-ESPERANÇA ou MERGULHAR NO FUNDO DE MINHA ESSÊNCIA. Com muito esforço e tempo, consegui direcionar meu olhar para a segunda opção; resgatei a mim mesmo, e, como um valente salva-vidas, com um braço enlacei o meu pescoço e com o outro impulsionei corpo e Espírito para a superfície. Como no "Mito da Caverna", de Platão, quase enlouqueci com a forte luz do dia; quase retornei várias vezes para os recônditos da alma. Ah, mas que força medonha se criou em mim com o passar dos anos! Foi como se todos os sentimentos bons e também os disfarçados de bons, de tanto se chocarem, tivessem criado uma nova potência em meu ser, cujo nome não se pode batizar. Tudo o que se transforma dentro de cada pessoa é inominável, pois se trata de uma redenção de um deus-não-sei-o-quê-interior e não-universal. É de cada um e para cada um essa tal potência; é como identidade digital, não existe uma que seja igual à outra. E foi a partir dessa consciência que os meus olhos voltaram a sentir prazer com os raios do sol; que a minha Vontade, pregada com não sei quantos pregos de desesperança, de tanto esperar um socorro externo, rasgou-se toda para libertar-se e, ainda que destroçada e sangrando nas arestas, arrastou-se heroicamente até encontrar um pequeno arbusto, que, apesar de sua pequena copa, sabia amar com veemência. E foi com esse sopro de amor que minha Vontade, aos poucos, conseguiu se regenerar, ainda que a parca sombra do valente arbusto tivesse de ser dividida com tudo o que estava doente em mim. E não eram poucos os sentimentos corrompidos que precisavam de um pouco de refresco, de um remendo aqui e outro ali. Enquanto meu Espírito ressonava, Vontade e Potência-Minha regeneraram todos os cortes e recortes de minha Essência e me devolveram o Todo que eu tinha abandonado por puro medo de duelar com a Vida. Foi então que, rindo de aleluia, tive um insight: a Vida jamais quis duelar comigo; como é que se pode duelar com o que nos permite respirar?! "Insano” – refleti, "Eu ESTOU insano!..." E me pus a rir até me doer o estômago. E comigo se puseram a rir todos os meus sentimentos, os meus medos, o Espírito... Até minha Vontade mijou-se toda de tanto gargalhar. Tudo girava num redemoinho de expurgação. Tudo o que era ruim, o redemoinho expurgava para uma espécie de labirinto onde aprisiona-se tudo aquilo que faz a vida sangrar em dor. Quando o redemoinho se dissipou, o que ficou foi o cerne puro do que me move. A Vida não havia me abandonado nem um segundo sequer. Ela sempre esteve dentro de mim. Eu é que, "doente de amor", passei a enxergá-la de fora para dentro. Eu estava literalmente fora de mim e, ingenuamente, desafiava a minha própria vida. Ah, que alívio foi quando meu Espirito – adormecido – abriu os olhos num puro bocejo de uma pessoa que acorda e diz "Estou pronta de novo!" e percebeu que voltara a olhar de dentro para fora. "Estou salvo" – pensei. E tanto os olhos físicos quanto os metafísicos deixaram mais de não sei quantas mil lágrimas escorrem pela face e, da face, por todo o corpo – o físico e o metafísico. -EU CONSEGUI! NÓS CONSEGUIMOS! – gritava a boca calada a tanto tempo. -Agora SOU novamente; Vontade-Minha está aqui dentro do meu peito, até então ressequido, fazendo o sangue jorrar incessantemente do coração para o meu TODO..." – sussurrei para dentro de mim mais lentamente, mais convicto de que eu tinha finalmente me livrado da sobrevida e o que me movia novamente era a minha boa e velha companheira VIDA. Eu já podia caminhar conforme minha Vontade novamente
LIBERDADE é o nome do que me habita agora e, dentro de mim, sou totalmente livre para ser o que a minha imaginação me permite ser.
Bem-vindas ao seu verdadeiro lar, Vontade e Força minhas!

Éd Brambilla. CRÔNICA. Ou seria uma Carta (?). AUTORRETRATO. 10.01.2016.

sábado, 28 de novembro de 2015

Liberdade de EX(O)PRESSÃO

Muitas pessoas são um paradoxo em si mesmas (paradoxo = ideias contrárias): defendem veemente sua liberdade de ir e vir, e, principalmente, sua liberdade de expressão. No entanto, para essas mesmas pessoas, analisando-se diversos fatos divulgados por muitos canais de informação, a regra de defender direitos só tem voz quando é para si mesma. Quando se trata do outro, baseia-se em fundamentalismos (dogmas = crenças) para, considerando-se dona da verdade, condenar o livre arbítrio de "ser" do próximo. A humanidade, em sua maioria, ainda encontra-se na idade média (na verdade, uns duzentos anos depois), onde queimavam-se pessoas nas fogueiras por força do 'Santo (?) Ofício' (era assim: "Tem um gato preto em casa? Vai para a fogueira junto com o gato"; "Faz benzimentos? Vai para a forca"). E até hoje ainda vemos a mesma mentalidade de séculos atrás: "É homossexual? Dá uma surra nele"; "É lésbica? É por que ainda não encontrou um pinto de um macho de verdade!"; "É de esquerda? É ladrão!"; "É de direita? É ladrão, também!"; "É mulher e usa roupas curtas? É vagabunda. Estupro nela!". Aliás, atualmente, é perigoso até mesmo falar em liberdade de expressão. Denúncias?! É sentença de morte certeira. Seja como for ou como não for, VIVA A LIBERDADE DE EXPRESSÃO!

PS.: GRITE 'baixinho', com INTELIGÊNCIA.

Éd Brambilla. Crônica Social. Liberdade de Ex(O)PRESSÃO. 28.10.2015.

Da “tag” #meuamigosecreto – Campanha contra o MACHISMO que viralizou nas redes sociais

‪         #‎meuamigosecreto é casado, pai de dois filhos: um menino e uma menina. Ele sempre me diz que uma mulher para ser direita precisa ser corrigida desde a infância. Portanto, ele ensina a sua (in) feliz garotinha tudo o que ele acredita ser a mais pura retidão: "Filha", ele diz, "você só pode brincar de bonecas, pois precisa desde cedo aprender como será quando você for mamãezinha; precisa aprender direitinho todos os serviços domésticos para que seu futuro marido não tenha do que se queixar de você. E o mais importante, filhinha: JAMAIS ceda a qualquer menino; são todos uns 'malacos'! Você tem de se manter "pura" até encontrar o seu príncipe encantado, que deve ser honesto e rico para que não te falte nada. Entendeu, meu amorzinho?! Mais tarde, sua mãe, que obedece a tudo ao que o papai diz, vai te ensinar a bordar, fazer tricô, crochê e cozinhar. Está me entendendo, meu anjinho?!"

E depois de todo o discurso com sua garotinha, o meu amigo secreto chama o seu menininho para lhe dar uns conselhos que só podem ser dados "de homem para homem":

"E aí, garotão, vamos levar um ‘lero’?!", chama ele o filho para os tais conselhos masculinos. "Filho, presta atenção no que o papai vai te falar: é coisa muito séria. Jamais chore na frente de quem quer que seja; nunca leve desaforo para casa; se mexerem com você na escola, cai na ‘porrada’. Está me entendendo, filhão?! E o mais importante, meu filho: VOCÊ É MACHO! Se você se interessar pela filha do vizinho, não perca tempo; vocês são da mesma idade. Mesmo que ela esperneie, grite, tape a boca dela e arraste-a para trás do muro da escola! Vê se não decepciona o papai!

E agora o conselho mais importante, filhão: FIQUE SEMPRE ‘NA COLA’ DA TUA IRMÃ; JAMAIS DEIXE QUE ALGUM 'MALACO' SE APROXIME DELA, QUE É MENINA QUE ESTÁ SENDO EDUCADA COM MUITO ZELO. Entendeu tudo, meu 'Hércules'?! Agora pode ir.... Ah, depois você dá uma olhadinha debaixo do seu travesseiro. Papai comprou uma ‘playboy’ pra você já ir se acostumando com a infinidade de tipos de mulheres gostosas e disponíveis... Só não deixa tua mãe ver, ok?!... É isso aí, filhão! Papai também "come fora"... Quando você arrumar uma menina de boa conduta e se casar com ela, você também poderá fazer o mesmo. Mas finja que é o homem mais fiel do mundo... Mulher é burra, a gente engana fácil... Se você tiver dificuldades, papai te ajuda”.


Infelizmente, homens como o meu "AMIGO SECRETO" ainda existem!


Éd Brambilla. 27.10.2015.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

A "GATINHA DO BECO" QUE ENCONTROU UMA SAÍDA

"Miauuu" - ouviu de repente a moça Janaína quando passava a alguns metros de um beco frio e sombrio.
Era um miado fraquinho; as últimas forças da gatinha. Quando pressentiu que alguém de coração bom se aproximava, ela soltou, não um miado costumeiro, mas um pedido de socorro: "Socorro", fez a gata. E não há outro significado para o condoído "miauuu" da pobre siamesa. Animais têm extinto e sabem a quem pedir socorro.
Janaína aproximou-se da gata. A felina, toda dócil e imbuída de carência, subiu ao colo da moça e aninhou-se como se estivesse encontrado o próprio útero de sua mamãe Dona Gatona.
Não cabe aqui neste texto falar de quem a abandonou, de suas asperezas ou sentimentos desumanos. Para a pequena gata, que deve ter em torno de uns dois meses, isso já é passado. Quero é falar dela, que já até ganhou um lindo e pomposo nome: Édith Piaf de Beauvoir. Eu até tentei convencer de que ela é a "fuça" de Clarice Lispector. Mas não houve jeito. Estefânia - a segunda a adotar a gata - e Janaína representam a maioria. Ficou Édith e pronto.
Édith é dócil e despachada, também. Felinos lá são bobos?! Aboletou-se da casa no primeiro instante em que chegou ao novo lar. Ela é uma “gatinha-vaso”: onde é posta, fica. Veio com dor-de-barriga, a pobrezinha. Estefãnia foi a escolhida para o cargo de mãe. Édith quis assim. Há que se respeitar. Então ficou decidido que ela e Estefânia dividirão o mesmo quarto. E como mãe zelosa, lá foi Estefânia, no meio da madrugada, arranjar terra para as necessidades da criaturinha. Gatos são higiênicos e não gostam de deixar seus dejetos à mostra. Problema resolvido.
Porém, surgiu uma situação que ainda levará um tempinho para a resolução: Lilica e Leleca, "as yorks", que dividem quarto comigo, não gostaram nadinha da nova e estranha (para elas) companhia. Leleca, como sempre, borrou-se de medo com o primeiro bufar da gata. Lilica, ah, essa Lilica! Essa enfrenta até "pastor alemão" (cachorro, gente!). A "york" com alma de "pitbull" partiu para cima da gata. E o bufar dela foi engolido durante uma carreira para debaixo da primeira cama que encontrou,
Estefânia, a nova mãe, tratou de providenciar consulta com o veterinário, vermífugos, castração, caixa de areia e areia própria para os bichanos.
A família diversificada aumentou. "O beco sem saída" de Édith Piaf de Beauvoir encontrou uma brecha na ínfima possibilidade da vida animal. Havia uma luz no fim do beco. E a luz tem o nome Janaina.
Seja-bem vinda ao novo lar, Dithinha!


EXPLICAÇÃO DO NOME DA GATINHA: "Édith Piaf", porque a célebre cantora francesa recebera a alcunha de "piaf" porque tinha voz de passarinho; ela não cantava, chilrava.... E a gatinha mia com doçura de passarinho... "de Beauvoir", porque Simone de Beauvoir foi uma filósofa "existencialista" (o que existe é o agora, algo parecido com o Carpe Diem)... E a gata é assim: parece não se importar com o depois...  Ela vive o momento... Não quer saber o que será dela daqui a alguns instantes...


Éd Brambilla. CRÔNICA. A "GATINHA DO BECO" QUE ENCONTROU UMA SAÍDA. 20/11/2015.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

ESQUIZOFRENICAMENTE FELIZES



Filosofando sobre a vida com um colega de van (transporte que me leva para a faculdade), depois de tantos assuntos bem interessantes, ele me perguntou:


-Você gostava do seu pai?


(...)


Depois de um breve silêncio, a resposta saiu tão nítida, tão clara e rápida, que fiquei assustado com minha própria resposta, a ponto de uma espécie de aleluia fazer o tempo transformar segundos em horas. Até agora me pergunto:


-Essa resposta foi minha ou foi de meu pai?!


Não, a resposta não foi genial, mas me tocou de uma forma que raras são as vezes que acontece de algo mergulhar no mais profundo de mim.


Minha (?) resposta:


"Meu pai foi um cara incrível... Criou nove filhos ganhando muito pouco... E o maior presente que ele me deu em vida foi nunca ter podido me dar um daqueles brinquedos da 'Estrela'..."


Já em casa, me pus a refletir:


Meu pai mal podia me comprar roupa e material escolar... Então eu tinha de fabricar os próprios brinquedos... Juntava minhas duas irmãs mais novas e os filhos dos vizinhos para imitarmos a vida dos adultos... E nesta ilusão, eu escrevia histórias e montava os cenários... E cada um interpretava um personagem... Eu escrevia, dirigia, atuava... Noutro momento, eu montava uma sala de aula e "pluft", já era um professor,,, Morria um animal de estimação e "pluft", um velório já estava montado; e eu fazia as vezes de padre e coveiro... Qualquer material servia para ser transformado em brinquedo: buchas (daquelas vegetais cujas ramas sobem onde dá para subir) verdes de todos os tamanhos viravam vacas, bois e bezerros (minha mãe não gostava muito da ideia; ela sempre se queixava que nunca encontrava os "forfes" para acender o fogo do fogão; ela não entendia que eram animais quadrúpedes; e ainda havia os chifres, ou seja, seis palitos de fósforos para cada animal; e a fazenda era grande, tinha muitos bois e vacas e bezerros)... Tinha a brincadeira da "Rama-Sama" ou o casamento de um par de bichos num momento, com direito a altar, padre e a estátua de "Nossa Senhora" para abençoar os noivos, e, noutro momento, às vezes na sequência, brincávamos de terreiro de Candomblé (que só vim a entender muito tempo depois do que se tratava). Em fila, cada um esperava a vez para ser exorcizado; eu agarrava nos cabelos de um com a mão direita e nos cabelos de outro com a mão esquerda; sacudia as cabeças das crianças para todos os lados e gritava para o "espírito-de-porco" sair de dentro dos corpos delas. E mal eu terminava de exorcizar a última das crianças possuídas, lá vinham as primeiras dizendo que estavam possuídas novamente, que queriam mais. Então vinha o coro: "mais, mais, mais..." Eu arrancava tufos de cabelos dessas crianças; e elas pediam mais.


Na brincadeira da "Rama-Sama", que citei acima, eu colocava uma das crianças sentada na cadeira-de-rodas do pai de uma delas; na sequência, eu saía ensandecido com a cadeira contornando uma enorme moita de cana-de-açúcar; após a terceira volta, enquanto eu gritava "Rama-Sama" e quem estava na cadeira berrava 'AHHHHHHHHH", mesmo, eu jogava sobre a moita de cana a cadeira com criança e tudo o mais. Não sei se eu era o mais retardado ou se eram as crianças as débeis mentais. Essas histórias foram retiradas de até os meus dez anos de idade. Depois fui ficando mais sofisticado. O fato é que éramos todas crianças criadas soltas, sem "coisas da Estrela." Nossa maior tecnologia era usar uma vela dentro de um globo de lâmpada daqueles antigos para fazer de bola de cristal. Então eu virava o "Madamo Jalusco", que lia o presente, o passado e o futuro; tinha tenda e tudo o mais, sem contar a minha caracterização: um lençol enrolado no corpo e uma toalha servindo de turbante na cabeça. Esta brincadeira, em especial, mal aconteceu uma única vez, pois, quando eu pedi para uma de minhas irmãs entrar para ser a primeira a ter o destino revelado, no que ela entrou na tenda e olhou para mim e o "globo-de-lâmpada-de-cristal", a doida se pôs a berrar como se estivesse sendo estrangulada. Eu, desesperado, acreditei que ela estivesse vendo um espírito atrás de mim. Resultado: ela saiu correndo aos berros e eu, também aos berros, atrás dela. E atrás da gente, sem entender absolutamente nada, vinham as outras crianças que esperavam por suas consultas, também ensandecidas e aos berros. Quando tudo se acalmou, ficamos horrorizados quando vimos a tenda toda comida pelo fogo; a vela incendiou o "globo", que era de plástico, e o fogo do globo incendiou o turbante que eu tinha deixado para trás, até que a tenda (pobrezinha), sem poder sair do lugar, foi comida pelas labaredas. De longe, quietos e sentados na beira de uma goiabeira, além do olhar de espanto de quem jurava que aquilo era coisa dos espíritos do além, nos resumimos a uma interjeição uníssona:


-Oh!


Só saímos do transe depois que ouvimos minha mãe gritar:


-Divalllllldoooo!!! Seu fêla da puta, eu vô ti dá uma pisa de espada-de-são-jorge!!!


E não sobrava um para contar a ocorrência dos fatos, para dizer que a culpa era dos espíritos. Corríamos para a rua; e minha mãe ficava para trás, xingando tudo o que vinha na cabeça dela enquanto jogava água na tenda mal sucedida.


Longe dos domínios de Dona Mercedes, íamos procurar mais "chifres em cabeças de cavalos". Éramos crianças (endiabradas... E eu a pior de todas). Mas quer saber?


ÉRAMOS ESQUIZOFRENICAMENTE FELIZES!



Éd Brambilla. Crônica. ESQUIZOFRENICAMENTE FELIZES. 13.11.2015.