ALMa RaBiScAdA

sábado, 19 de novembro de 2016

PARANOIA

ÉD BRAMBILLA

APRESENTA:




Capítulo I


Maria Felicitá quer ser “normal”

Nesta história, o nome da cidade onde a trama se desenrola é Penápolis. É que Penápolis vem de pena – creio eu. E pena é bom pra fazer cosquinha na barriga da gente, porque rir é bom demais. E a risada frouxa da cosquinha é a melhor coisa do mundo porque é uma risada arrancada de espontâneo.
No bairro do Pó-de-Mico, em Penápolis, vive Maria Felicitá, que se ri de cócegas, de tombo alheio, de gente que escorrega na casca de banana, de gente peidorreira, de mico-leão-dourado que vive na eminência do “acabou-se o que era doce”… De tudo a moça se acaba de tanto se rir.
Maria é pura alegria. Em velório, ela costuma rir com vontade. Mas é uma vontade cheia de responsabilidade: ela não ri do defunto não. Isto é que não. Maria tem medo de assombração. Só ri das situações estereotipadas de velório superficial onde ninguém nem está aí com o morto. Quando o velório é sério, Maria fica séria também.
Ocorre que de um tempinho pra cá Maria Felicitá vinha meio incomodada com tanta alegria. Ela andou lendo numa revista de psiquiatria sobre transtornos obsessivos compulsivos, bipolaridade, síndrome do pânico, depressão, ansiedade, aracnofobia, homofobia, gatofobia, gentefobia, tudofobia... Todos esses transtornos que sempre existiram e só puseram nomes recentemente.
-Gente, quanta gente transtornada! – disse transtornada com tanto transtorno a alegre Maria para si mesma.
E agora Maria Felicitá se pôs ressabiada achando que é anormal. Pior: enfiou na cabeça que sofre de “exclusão social transtornante”. Isto lá na maneira de pensar dela.
Num domingo bem cedinho lá foi Maria na banca do Zé Debochado comprar o novo número da tal revista que fala de psiquiatria e de todos esses assuntos do mundo dos miolos. E tinha reportagem falando de uma famosíssima psiquiatra, a doutora Zigmunda Froida, que é especialista em desenvolver todo tipo de transtorno já nomeado e até transtorno que ninguém nem botou nome ainda. Mas a doutora era perita em desmiolices e batizou tudo quanto foi transtorno pagão.
-Dois mil reais custa uma consulta com a dona Froida?! – fez Maria Felicitá toda espantada.
Mas Maria não podia esperar não. Juntou uma televisão de led, um microsystem, um micro-ondas, uma secretária eletrônica, um mico-leão-dourado e um I-Pod G8 Três Vírgula Quatro Polegadas e Meia. E tudo ela vendeu para o muambeiro Tião Sorriso por mil e oitocentos reais. Tião Sorriso é muito esperto. E Maria muito besta.
-Não tenho medo de pechinchar não – falou Maria para as paredes. –Dona Froida vai me dar um desconto que eu sei. Ninguém é bobo pra dispensar bufunfa assim não.
E lá se foi Maria atrás da doutora Zigmunda.


Capítulo II


A consulta com a Doutora Zigmunda Froida

Na recepção da psiquiatra, Maria Felicitá sentou-se numa poltrona imitando um sapato de salto alto. Ela gostou muito. E reparou num quadro na parede à sua frente.
Santo deus! O que será aquele rabisco comprido que tem um pé tão grande e ainda por cima tem um pé só?!” – pensou Maria toda curiosa e pasmada. “Saci não é não porque não tem gorro vermelho nem cachimbo na boca” – concluiu nos alegres miolos.
Maria não tinha aprendido nada sobre artes. Ela só tinha aprendido a rir de tudo. Nunca falaram do Abaporu pra ela. E o retrato era mesmo o Abaporu da Tarsila do Amaral, que foi casada com o Oswald de Andrade, mas o casamento nem deu muito certo não.
Nisso a secretária da doutora Froida, a Zefinha Rabugenta, mandou Maria entrar na sala da psiquiatra porque era a vez dela. E Zigmunda não podia perder tempo. Isto é que não.
-Acha!... Tempo é dinheiro... Ninguém tem tempo pra perder com gente alegrinha assim não! – disse Zefinha toda desacreditada com a alegria de Maria.
E lá foi Maria de alegrinha ter com a grandessíssima entendedora de cabeças.
-Entre, darling – fez a doutora. –Deita no divã e vai logo desembuchando o que é que você tem, meu bem!
Maria obedeceu rapidamente porque se lembrou da essência das palavras de Zefinha Rabugenta: “Tempo é dinheiro e ninguém tem tempo pra desperdiçar com gente alegrinha não”. Só ela, Maria, é que gostava de ser feliz.
-Não tenho nada não, dona Froida!
-Não?! – espantou-se a doutora.
-Mas vim aqui pra ver se arranjo alguma coisa qualquer – emendou sem demora a moça que padecia de felicidade.
-Hum... Vejo que você é ajuizada, baby – disse satisfeita a psiquidoida.
-Mas só tenho mil e oitocentos reais... Mais eu não tenho não!
-Oh, honey! Não se preocupe não... Sempre tenho uma coisinha ou outra que cabe direitinho no bolsinho de clientinho brasileiro. Tenho sim!
E lá foi a doutora espertíssima na direção de uma estante repletinha de tudo quanto era transtorno mental.
-Como é a sua primeira vez, litle girl, vamos devagar porque devagar se vai ao longe – advertiu a médica.
E falou isso coçando o queixo com a mão esquerda enquanto a mão direita tateava as prateleiras das delícias transtornativas.
De repente a psiquiatra fez: -Oh!!!
-Encontrou, doutora??? – perguntou Maria já toda imbuída só com a iminência de um transtorno que lhe entristecesse a alma e a incluísse na sociedade dos transtornados.
-ESQUISIOTEPATIA TRIPOLÁRICA SORUMBÁTICA!!! – gritou com muita satisfação na voz a inventora de doidices.
-Que diabo é isso?! – quis saber Maria toda escalafobética.
-Um transtorno que criei já vai algum tempinho... Só estava esperando a pessoa certa pra prescrever.
-Eu que sou toda errada sirvo pra ser a pessoa certa, dona Zigmunda? – ressabiou-se Maria Felicitá no fazer da pergunta.
-Oh, of course que sim! – atestou a doctor que é da terra do Tio Sam e aprendeu a falar português pra escarafunchar com êxito as cacholas do Brasil.
E veio a prescrição:
-Um comprimido de manhã bem cedinho e um bem à noitinha, antes dos braços de Orfeu. E assegurou bem para Maria:
-Honeyzinha, não te preocupe com os efeitos colaterais dos primeiros quarenta dias do tratamento não, que são alegria triplicada e sentimentos de amor exagerados.
-Ai, meu deus!... Não corro o risco de morrer com tanta felicidade, dona Froida?!
-Que nada, Darling!... É só no começo… Depois de quarenta dias, vocezinha sentirá uma tristeza e uma melancolia tão incomensuráveis que nunca mais se lembrará da menor alegria que possa existir neste mundo de gente desregulada pela felicidade.
-Oh, doutora Froida! Que alegria! Não é todo dia que se encontra uma especialista em esquisitices.
E Maria voltou pra casa, lá no bairro do Pó-de-Mico, toda contentinha porque em breve seria tão esquisiopatética como toda aquela gente da revista de psiquiatria.


Capítulo III


Morre, Maria, Morre de Alegria!

Nos primeiros vinte dias de tratamento, Maria Felicitá não se aguentava de tanto se rir. Se mijava toda de tanta alegria.
Com trinta dias, a moça estava insuportavelmente feliz. Achou até que morreria.
Pelo menos morro feliz”, matutou na cabeça louríssima.
Quando se completaram os quarenta dias do tratamento, a doida, no mais alto clímax de felicidade, já pedindo besouro em namoro, disse para si mesma com muita histeria:
-Enfim, amanhã ficarei SO - RUM - BÁ - TI - CA!!!
Qual! Ficou nada!
Na madrugada do quadragésimo para o quadragésimo primeiro dia, o coração de Maria explodiu de tanta euforia. Morreu com os olhinhos arregaladinhos e bem brilhantes. A boca parecia que tinha triplicado os dentes de Maria, de tanto que ela sorria.
A doutora Froida soube do acontecido e foi consultar as bases. Tinha prescrito comprimido de “cannabis sativa” para Maria em vez de comprimido para ESQUISIOTEPATIA TRIPOLÁRICA SORUMBÁTICA.
E assim, era uma vez Maria Felicitá, que era toda alegria e morreu de overdose de tanto gozar de felicidade e sonhos de orgia.


_________ F I M ________




Éd Brambilla. Conto. PARANOIA. 17.09.2015.


TODOS OS DIREITOS AUTORAIS RESERVADOS.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

A NATUREZA E A (DES) CONSTRUÇÃO DO SUJEITO


Desde que o mundo é mundo, o bicho-homem, para se construir como sujeito e materializar suas ideologias, depende, incontestavelmente, da natureza que o cerca. E, para atingir seus objetivos, desconstrói e agride indiscriminadamente essa mesma fonte que o alimenta. A necessidade do Homem em agregar valores subjetivos e coletivos a sua existência vai de encontro à necessidade da Natureza de existir em sua plenitude e direito; não se construiu ainda um meio termo para que Homem e Natureza coexistam de maneira sobretudo mutualista; o parasitismo ainda é a mola-mestra unilateral – por parte do Homem – dessa relação. Nesse jogo de vaidades para impor seu poder de espécie privilegiada, o Homem caminha produzindo informação, tecnologia e valores numa eterna ressignificação de seu egocentrismo. No entanto, e apesar de todo o seu notável esforço, o Homem, quanto mais apregoa a sua evolução e magnificência existencial, não se dá conta de sua miserabilidade solitária intrincada na alma: o Homem é solitário em si mesmo porque enxerga a transformação em seu exterior e não se dá conta de que a transformação é em si mesmo, em sua essência. No final de tudo, depois de toda a experimentação de prazer, não lhe resta nada mais a não ser questionar-se: Por quê? Para quê?

Para arrematar este texto, tomo emprestada uma visão – ainda tão moderna e pertinente ao tema aqui tratado – do filósofo alemão, Friedrich Wilhelm Nietzsche, que escreveu em sua obra, "Assim falava Zaratustra":

(...) O homem e a sociedade vivem na hipocrisia, à sombra de valores que não correspondem às aspirações do ser humano, porquanto marcados e conduzidos por um conjunto de leis, costumes e tradições que se já se comprovou, além de desgastadas pelo tempo e pela maldade dos homens, aleatório e inútil (...)”.


Éd Brambilla. CRÔNICA SOCIAL. A NATUREZA E A (DES) CONSTRUÇÃO DO SUJEITO. 14/11/2015.

Imagem: retirada da web.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

ALMaS DÍSPaReS

Éd Brambilla apresenta:


    

       Capítulo I

Apresentações: Antônio Descrente & Maria Esperança

Trata-se de um casal incomum: ela, que aos trinta e seis anos de idade, nunca havia experimentado o amor que paralisa e faz com que a vida se mostre cheia de novidades, encontrou nele a esperança da plenitude; ele, que aos trinta e oito anos, vivera apenas de amores fugazes, encontrou nela a falta de aviso prévio do amor que tantos vislumbram. O fato é que de quando em quando ambos mergulhavam em suas entranhas em busca de novas emoções. No entanto, o ar lhes faltava e os dois voltavam à superfície envoltos apenas por prazeres efêmeros.

Mergulhar no profundo do que se é e buscar o que verdadeiramente se quer exige esforço de uma retidão precisa.

O nome da mulher poderia ser o nome de qualquer mulher sonhadora e esperançosa: dou-lhe o nome de Maria Esperança; ele, que até então não acreditava no amor, batizo-lhe agora com o nome de Antônio Descrente.

Maria Esperança, quando criança, vivia de pequenos sonhos roubados de histórias fictícias dos livros que lia. Quanto aos sonhos grandes, ela tinha pavor de tomá-los para si. Faltava-lhe ambição. E havia nela o inoportuno medo de parecer criminosa demais, fato que lhe arrepiava toda, como se entre o roubar pouco e o roubar muito houvesse uma extraordinária misericórdia. Já era difícil para a menina viver os pequenos sonhos, e, como julgava sua alma pequena demais, não cabia ali uma história de grandes acontecimentos.

Antônio Descrente, por conta de severas complicações de gestação, nascera de um parto cuja mãe oscilava entre um suspiro de vida e outro de morte. Se Antônio fora presenteado com a vida, foi por pura incondicionalidade do amor materno. E como castigo, despercebido no silêncio daquilo que não se ousa procurar uma resposta, teve a sorte de sua criação lançada a um pai incorrigivelmente machista e mulherengo.

A sorte, muitas vezes, é de uma sordidez de dar nó na garganta; ela é quem faz as escolhas, apesar de todo o livre arbítrio que se julga ter. Quando adolescente, o imberbe menino olhava para as meninas através de olhos lubrificados com testosterona; vislumbrava a fêmea e não a mulher.

O rapaz atravessara o auge da juventude acreditando que poderia dar prazer a toda mulher que lhe mostrasse interesse. E nesta crença, amarrada com nó-de-marinheiro, em dar o que nunca teve, não lhe cabia na essência que sofria de uma miserável pobreza de felicidade. Era involuntariamente solitário.

A solidão mais triste é aquela que habita na alma com uma inconsciente vontade do que se quer. E o invisível do que se quer prolonga-se em flagelo de punição. Antônio não tinha consciência do flagelo que carregava em procissão para pagamento de promessa não feita.


           Capítulo II
  
Maria “rebelada”

Em uma tarde de domingo – de uma primavera esquecida –, Maria sentiu, num repente de surpresa inevitável, um comichão a lhe corroer o caráter. Brotava ali uma necessidade alimentada com madeira seca que precisava ser consumida através do que há de mais carrasco no fogo: decidira tornar-se uma criminosa digna das honrarias que somente os que sentem a consumição do amor poderiam compreender. Era o tardio momento de viver uma história em cores, tons e sons a enveredar o mais secreto de seus desejos. Foi então pela primeira vez ao cinema. Os livros obrigavam-na a compor cenários. E agora ela queria o cenário pronto. Era hora para um assalto em grande estilo; e o prêmio era a essência da heroína de um cordel. Maria idolatrava romances recheados de amores impossíveis que enfrentavam obstáculos tortuosos até alcançar a possibilidade.
A súbita obsessão em tomar posse de história alheia era, para Maria, uma espécie de fuga das ciladas do amor. Filha única, de pais que mal se amavam, crescera ouvindo da mãe: “Jamais confie no amor de um homem, minha doce menina!” Daí o fato de tornar-se - desde pequenina - uma ladra de amores com finais felizes.
Maria debulhou-se em lágrimas logo nos primeiros instantes do filme. O choro saía lento, de um sofrimento soluçado. A expressão de seu rosto era de uma gravidade de espera de notícia de falecimento de quem se quer muito. Eis que ela perdera o intangível que reside na sensação daquilo que se vive pela primeira vez. Era novidade demais. Estava no cinema e perdera-se em não se dar conta de que estava. Fora inóspita para si mesma. E a crueldade do tempo consiste no fato de não voltar atrás. É uma regra necessária para que toda história não se torne repetitiva demais. Cada um que se preocupe em cuidar do próprio tempo.


Capítulo III

Antônio & Maria: Insights

Numa rua estreita, ornada dos dois lados com casas estreitas e apinhada de pessoas de mentalidades estreitas – e tudo o que existe de mais estreito na busca do prazer comprado –, estava Antônio. Ele entrou numa dessas casas. O espaço, com uma iluminação opaca e todo atordoado com o branco ofendido da fumaça de cigarros, parecia mais um crematório. Ali, no balcão do puteiro, Antônio sentou-se num banco de vime, cujo estado denunciava o fim de seus dias. Ele espalmou as mãos sobre o balcão, ainda cheio de copos sujos esquecidos por assíduos clientes - jovens e velhos, fossem eles solteiros ou casados. A sua frente, numa prateleira inteira abarrotada com sonhos de ébrio, bailavam, libidinosas, garrafas de todas as cores e formatos.
Antônio estava no segundo copo de uísque e, quando pensou em pedir o terceiro, uma moça, com os cabelos de um ruivo mentiroso e um vestido que a difamava logo no primeiro instante, cumprimentou-o toda lânguida. Também ela queria um copo de uísque, que pretendia pagar com sua companhia. Ele, de súbito, compreendeu e aceitou o feudal da situação. Antônio, a esta altura de sua miserável vida amorosa, sentia-se desanimado demais para as conquistas batalhadas e merecidas. Seria este fato um sinal de que ele começava a perceber a miserável falta daquilo que nunca havia experimentado, o amor?
Em seu modesto quarto de pensão, Maria estava em dúvida sobre qual vestido usaria em seu aniversário de trinta e seis anos. "Preto ou verde?" – pensava consigo mesma. Para dizer uma verdade toda banhada em ofensa, não importava a cor do vestido. Ela estaria só. Mais uma vez só. Escolheu o verde. Todo aniversário era o mesmo ritual: arrumava-se toda, fitava-se no espelho, procurava por possíveis novas rugas, apanhava a bolsa e ia comemorar a data em companhia de algum novo herói cinematográfico. Quando chegou à porta do cinema e se deparou com o cartaz do filme anunciado, um lampejo de memória indesejável atordoou-lhe a mente: já tinha vivido aquele amor. Maria, em toda a sua vida, jamais repetira um romance, e, naquele momento, pela primeira vez, não sabia o que fazer. Seria o prenúncio da urgência de morte do abstrato em prol do concreto?


Capítulo IV

Cupido

Antônio acordou no começo da tarde ainda com o cheiro das coisas estreitas da noite passada. Banhou-se na intenção de lavar seus pecados, vestiu-se com discrição e decidiu que naquela noite encontraria a sua outra metade nesta vida.
Do outro lado da vida de Antônio, estava Maria, que, neste mesmo dia, acordara cedo, como de costume. Também ela se banhara – mas sem intenção de lavar “pecados da carne”; estes Maria não os tinha.
Já era noite. As luzes artificiais, aos poucos, emprestavam a sua magia à cidade. Antônio recostou-se num banco de uma pequena praça em frente a uma catedral e se pôs a meditar sobre o que queria para o futuro.
Do outro lado da rua, Maria esperava por um táxi. Estava segura de que naquela noite passaria a ser mais “Maria” e menos “Esperança”.
Acontece que nem tudo o que se quer acontece como se quer – o que pode ser uma deliciosa surpresa.
Uma cadelinha, já cansada de sua condição – não de canina, mas de miséria –, decidiu atravessar a rua; provavelmente em busca de uma novidade que lhe mudasse o destino. E essa novidade havia de ser encontrada do outro lado. O atropelamento fora inevitável. A pancada não foi tão forte, apenas o suficiente para que a canina perdesse os sentidos. Maria – toda comovida por natureza – correu em direção à pobrezinha porque sempre amara os bichos. Sentou-se na calçada, retirou da bolsa uma garrafa com água e banhou a cabeça da bichinha. A cadelinha levantou a cabeça e sorriu de gratidão por Maria. 
-Ela ficará bem.
Maria ergueu os olhos para ver de onde vinha a voz. Deparou-se com Antônio.
Naquele momento a mulher teve a certeza de que tudo ficaria realmente bem. Antônio ofereceu-lhe ajuda. Disse-lhe que morava a menos de quinhentos metros dali. Maria aconchegou a cachorrinha no colo e levantou-se com a ajuda de Antônio. Os dois se apresentaram.
Alguma coisa no olhar de ambos dava a certeza do que estavam procurando.


       Capítulo V

Mãos Entrelaçadas e Corações Palpitantes

Já em sua casa, Antônio pegou um pouco de algodão, uma pequena vasilha com água quente e um frasco de mercúrio. Levou tudo para Maria, que o esperava na sala com a cachorra. Esta também tinha um brilho diferente no olhar. Depois dos primeiros socorros, Maria pediu a Antônio que trouxesse um pouco de alimento para a acidentada.
-Repare como a pobrezinha come cheia de aflição – disse Maria toda terna.
Antônio sorriu comovido.
Algum tempo depois, Maria assustou-se com as horas e resolveu que iria embora.  Antônio convidou-a para um passeio no dia seguinte. Ela assentiu com a cabeça.
Durante a madrugada, que se fizera eterna nesta noite, Antônio e Maria, cada qual em seu canto, suspiraram possibilidades que emergiam de sutis faíscas de desejos.
Na tarde do dia seguinte, num barzinho de esquina, lá estavam Maria e Antônio – não era o lugar mais sofisticado da cidade, mas o lugar onde nasceria a felicidade de duas almas díspares e prontas para o amor.
Maria estava tão cheia de futuro que aquele lugar imbuíra-se da mais pura e bela magia.
Antônio chegou com um atraso de dez minutos. Sentou-se de frente para Maria e estendeu suas mãos em busca das dela. Entrelaçaram-se as mãos (trêmulas, suadas, quentes, esperançosas).
-E a cadelinha, como está? -  perguntou Antônio.
-A pobrezinha já se sente toda minha – respondeu Maria. -E eu já me sinto a sua única dona.
O que Maria quis dizer – nas entrelinhas – era que o animal havia encontrado uma mãe, mas faltava-lhe um pai.
Antônio, às vezes, era limitado para entender algumas sutilezas.
Quando o garçom chegou com as bebidas, Maria lançou um olhar em direção ao outro lado da rua. Notou que outro cachorro tentava atravessá-la. Ela sorriu e pensou: “Será que teremos outro socorro a prestar?” Porém, desta vez, não se tratava de um animal tão corajoso.
-Encontrou um nome para a sua mais nova companheira? – quis saber Antônio.
-Sim! Seu nome agora é Lilica.
Subitamente, como num susto, Antônio engasgou-se com um gole de cerveja. E ficou feliz ao se dar conta de que não se tratava de um susto de medo, mas sim de contentamento. Neste momento, ele compreendeu que não era mais sozinho.
Maria fora mais sagaz. Já sabia desde o primeiro contato.
Se o casal encontrou a felicidade? Entrego essa tarefa a cada leitor. E aviso de antemão: cada um que se responsabilize por seu desfecho.
Avaliem os contextos e sejam cuidadosos.


----------------------------------------  FIM  ----------------------------------------


Éd Brambilla. ALMaS DÍSPaReS. Pequenos Romances. 2015.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

FLORESCER


                   No jardim da vida, eu me floresço
                         Em meio às flores que me encantam;
                              Em meio às flores murchas, adormeço
                                    E sonho com flores que me dignificam.

                  Éd Brambilla. Poesia. FLORESCER. 14/09/2016.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

O INFERNO É MAIS NO FUNDO


INTRODUÇÃO (Call Release):

                                   “Existe um inferno na Terra...
                        Muitos vão parar lá por diversos motivos...
                        E quando essas pessoas saem desse lugar,
                             carregam na alma uma espécie de
                         MARCA SOCIAL REGISTRADA...
             São homens e mulheres que adquirem um mesmo rosto,
       uma mesma história, um mesmo significado... um mesmo nome...
                                         Qualquer nome!
 No SISTEMA CARCERÁRIO, o INFERNO É MAIS NO FUNDO.”


O INFERNO É MAIS NO FUNDO

Texto baseado numa conversa real com um ex-presidiário; homem com bom vocabulário.

Cenário: Homem e Entrevistadora numa mesinha de bar; homem bebendo e fumando o tempo todo.

Homem sentado à mesa – bebendo e fumando – à espera da Entrevistadora, que se senta à mesa depois de fazer a introdução conceitual (cabeçalho acima), objeto da entrevista.

Homem e Entrevistadora já posicionados à mesa. Ambos com semblantes sérios e desconfiados. Inicia-se a entrevista:


Entrevistadora: -Por que você foi parar no inferno?

(breve silêncio)

Homem: -Eu tinha três bocas pra sustentar... E nem incluo a minha na conta... Você sabe o que é isso, moça? Você têm marido e filhos?
        
(breve pausa para um trago no cigarro)  

...Você até pode dizer coisas do tipo “trabalho honesto”, “pedir ajuda na Assistência Social” ou “recorrer a amigos”... Eu tentei, moça!... Juro que tentei... Mas eu não tive tempo pra “blá blá blá”... Eram três bocas reclamando...

(mais um trago no cigarro)

Entrevistadora: E qual foi a sua alternativa?

Homem: -Entrei no primeiro supermercado que vi... Peguei o que precisava... Não vou mentir pra senhora, que não sou dessa laia de mentirosos que existe em todo lugar... No meio do que “de comer” tinha uma garrafa de uísque, também... Um homem, às vezes, precisa de um consolo mais requintado...

(mais um trago no cigarro)

Entrevistadora: O que foi que deu errado?
         
Homem: -A “piranhazinha” lá do caixa me sacaneou... Mandei ela ficar “pianinha” enquanto eu mostrava um 38 de brinquedo pra ela... A vadia acionou um alarme embaixo do caixa... Duas horas depois eu já estava todo ferrado...

(mais um trago no cigarro, com olhos lacrimejando)

Entrevistadora: Para onde te levaram?

Homem: -Lá no inferno que me enfiaram mal tinha lugar pra quatro... Contei mais de vinte na cela... Passei uma semana dormindo agachado debaixo de uma goteira... Só depois é que resolveram meu caso... E foi à revelia...

Entrevistadora: -E depois?

Homem: -Me enfiaram pela segunda vez no “chiqueirinho” do camburão... E dessa vez demorou bem mais que a primeira vez pra eu chegar num inferno ainda maior, dona...

(breve silêncio)

...Onde eu fiquei uma semana era só o purgatório... O inferno é mais no fundo...

(soco na mesinha do bar)

Entrevistadora: -Quer continuar?

Homem: -Lá, moça... Você tem conhecimento que eu sei... Lá, você não sobreviveria... Tive de aprender a dissimular... Ninguém é culpado de nada no inferno maior... A culpa é sempre dos de fora... Toda gente presa, no fundo, é tudo vítima dessa merda de sistema... Tudo começa lá na molecagem, entende? Não vou ficar falando do percurso porque você entende dessas coisas melhor do que eu...

(trago no cigarro)

Entrevistadora: -Respire fundo... Continue quando puder...

Homem: -Só deixei de ser “soldadinho do governo” depois de seis meses comendo pão com banana... E só saí porque tive alguém por mim aqui do lado de fora... Mas não pensa você que tem sido fácil, não! Carrego uma tatuagem estampada... E não é no corpo não, moça... É na minha “ficha”... Faz tempo que vivo de “bicos”... Não me dão emprego fixo... E tudo são desculpas... Mas eu sei que “puxam” a minha “ficha”...

(trago no cigarro)

Homem: -Mas a gente tem de viver, não é mesmo? Então eu vivo do que me oferecem... Não acho isso vergonha...

(breve silêncio)

...Vergonha eu sinto quando olho pra minha mãe, que me criou sozinha... Pra minha avó, que fez o que pôde por mim... Do meu casamento nem falo, esse foi pro “brejo”... Mas hoje eu ensino meus filhos através do amor... Através da dor já basta a que eu carreguei e vou carregar pra sempre...

(breve silêncio)         

Entrevistadora: -Gostaria de acrescentar mais algum fato?    

Homem: -Não, moça! Não tenho mais nada pra contar... Tenho um “bico” pra fazer ainda hoje...

Homem (levanta-se da cadeira, toma o último gole de cerveja e despede-se da entrevistadora): -Fica na fé, irmã... Depois me fala se a minha história te serviu pra alguma coisa...

(Homem dá de costas e vai embora)

Entrevistadora (dirige-se à plateia e esclarece): -O entrevistado pediu para não ter seu nome citado... Nem mesmo aceitou um nome fictício... Apenas a história, que, nas palavras dele:

“É igual a de milhares por esse mundo afora, moça...”


ENTREVISTA ENCERRADA


Expressão “soldadinho do governo”: o homem refere-se ao fato de ter usado um uniforme amarelo durante os seis meses no presídio.


Éd Brambilla. O INFERNO É MAIS NO FUNDO. Entrevista. 02/12/2015.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

EU "ME CAIO"




O céu tem estrelas
Onde cantam os querubins;
Meu coração tem belezas
Como as flores dos jardins.

Me invadem as lembranças,
Nos sonhos eu "me Caio";
Sereno, navego em bonanças;
De aleluia - contente - "eu Caio".



Éd Brambilla. Poesia. EU "ME CAIO". 06.07.2016.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

O QUE TE FAZ FELIZ?

Muitos generalizam uma condição onde os humanos só conseguem ser realmente felizes se possuírem bens materiais e realizarem desejos que requer dinheiro. Tem muita gente espalhada pelo mundo afora que usufrui da verdadeira felicidade com o pouco que consegue conquistar - não por falta de garra para alcançar coisas maiores, mas devido a tantos porquês que o mundo impõe como barreiras. Algumas pessoas conseguem administrar bem suas condições de vida (sejam as que têm pouco ou as que têm muito), e outras, ao contrário, procuram argumentos para o que consideram uma frustração (o "não ter"), para amenizar a falta de sensibilidade para compreender a vida, que se explica sob uma ótica que inclui mundo exterior e mundo interior. Nem sempre o que se busca está do lado de fora. Um olhar mais sensível ao nosso mundo interior, muitas vezes, traz revelações que fazem a vida dar um giro (positivo) certeiro no que realmente nos faz felizes. E quando tanta gente não consegue, mesmo com muito esforço, enxergar o que precisa para ser feliz, projeta no outro, inclusive nos animais (que são genuinamente felizes porque não necessitam "ter", mas apenas "viver" das ofertas da natureza), a sua frustração, e, de uma maneira pseudo-positiva, reverencia a felicidade que vislumbra no outro, quando, na verdade, o sentimento é de cobiça. Neste ponto, sim, concordo que os animais são verdadeiramente mais elevados que nós, seres humanos. Eu sei disso porque aprendo há quase nove anos com a Lilica, a minha "york".

Éd Brambilla. Crônica. O QUE TE FAZ FELIZ? . 03/07/2016.

sábado, 25 de junho de 2016

CORPO D'ALMA


Quando a Alma grita
E em desespero se destroça,
Também o Corpo grita –
Aniquilado – em resposta.
Vagueia o Corpo – ressequido –
Com sua Alma descomposta,
E vê, mudo, ressurgindo –
Sabe-se lá de onde –,
O fel doido e frio de outrora,
Que se lhe brotara pela fronte.
“Não para, Corpo!” – clama-lhe
A Alma; “Caminha mais longe
E sem descanso” – suplica-lhe,
Doida de horror e sem horizonte,
A negra alma em desamor.
O Corpo – trépido – não se aguenta
E, em suas reminiscências,
Tudo o que se lhe sustenta
São parcas lembranças – menos tristes –
Que lhe fugiram a sua dor e, agora,
Pesaroso, caminha o seu Amor.
“Sustenha-se, Corpo!” – grita-lhe a Alma;
“Leva-me daqui, sem demora!”, implora,
Ofegante, a Alma doida de horror.
“Não, Alma!” – responde-lhe em desafio
O Corpo ressequido que vagueia – triste –
No encalço de seu Amor.
“És tu, Alma insana, a fagulha
Que me sustenta! E se tu não
Me alimentas, que faço eu
Em teu favor?”
A Alma – ultrajada – grita.
O Corpo – maltratado – grita.
A Coragem – debilitada – grita.
O Amor – ressequido – se agita.
Alma, Corpo e Coragem se calam.
O Amor, cheio de uma vontade aflita,
Dos odores do fel da vida, corre.
Mortificado, sangrando, foge;
Desnorteado, cai, e, aos prantos, MORRE.


GÊNERO: Poema Poético
Concepções: Romântica / Gótica / Existencialista


Éd Brambilla. Poema Poético. CORPO D’ALMA. 19.06.2016.