ALMa RaBiScAdA

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

FLORESCER


                   No jardim da vida, eu me floresço
                         Em meio às flores que me encantam;
                              Em meio às flores murchas, adormeço
                                    E sonho com flores que me dignificam.

                  Éd Brambilla. Poesia. FLORESCER. 14/09/2016.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

O INFERNO É MAIS NO FUNDO


INTRODUÇÃO (Call Release):

                                   “Existe um inferno na Terra...
                        Muitos vão parar lá por diversos motivos...
                        E quando essas pessoas saem desse lugar,
                             carregam na alma uma espécie de
                         MARCA SOCIAL REGISTRADA...
             São homens e mulheres que adquirem um mesmo rosto,
       uma mesma história, um mesmo significado... um mesmo nome...
                                         Qualquer nome!
 No SISTEMA CARCERÁRIO, o INFERNO É MAIS NO FUNDO.”


O INFERNO É MAIS NO FUNDO

Texto baseado numa conversa real com um ex-presidiário; homem com bom vocabulário.

Cenário: Homem e Entrevistadora numa mesinha de bar; homem bebendo e fumando o tempo todo.

Homem sentado à mesa – bebendo e fumando – à espera da Entrevistadora, que se senta à mesa depois de fazer a introdução conceitual (cabeçalho acima), objeto da entrevista.

Homem e Entrevistadora já posicionados à mesa. Ambos com semblantes sérios e desconfiados. Inicia-se a entrevista:


Entrevistadora: -Por que você foi parar no inferno?

(breve silêncio)

Homem: -Eu tinha três bocas pra sustentar... E nem incluo a minha na conta... Você sabe o que é isso, moça? Você têm marido e filhos?
        
(breve pausa para um trago no cigarro)  

...Você até pode dizer coisas do tipo “trabalho honesto”, “pedir ajuda na Assistência Social” ou “recorrer a amigos”... Eu tentei, moça!... Juro que tentei... Mas eu não tive tempo pra “blá blá blá”... Eram três bocas reclamando...

(mais um trago no cigarro)

Entrevistadora: E qual foi a sua alternativa?

Homem: -Entrei no primeiro supermercado que vi... Peguei o que precisava... Não vou mentir pra senhora, que não sou dessa laia de mentirosos que existe em todo lugar... No meio do que “de comer” tinha uma garrafa de uísque, também... Um homem, às vezes, precisa de um consolo mais requintado...

(mais um trago no cigarro)

Entrevistadora: O que foi que deu errado?
         
Homem: -A “piranhazinha” lá do caixa me sacaneou... Mandei ela ficar “pianinha” enquanto eu mostrava um 38 de brinquedo pra ela... A vadia acionou um alarme embaixo do caixa... Duas horas depois eu já estava todo ferrado...

(mais um trago no cigarro, com olhos lacrimejando)

Entrevistadora: Para onde te levaram?

Homem: -Lá no inferno que me enfiaram mal tinha lugar pra quatro... Contei mais de vinte na cela... Passei uma semana dormindo agachado debaixo de uma goteira... Só depois é que resolveram meu caso... E foi à revelia...

Entrevistadora: -E depois?

Homem: -Me enfiaram pela segunda vez no “chiqueirinho” do camburão... E dessa vez demorou bem mais que a primeira vez pra eu chegar num inferno ainda maior, dona...

(breve silêncio)

...Onde eu fiquei uma semana era só o purgatório... O inferno é mais no fundo...

(soco na mesinha do bar)

Entrevistadora: -Quer continuar?

Homem: -Lá, moça... Você tem conhecimento que eu sei... Lá, você não sobreviveria... Tive de aprender a dissimular... Ninguém é culpado de nada no inferno maior... A culpa é sempre dos de fora... Toda gente presa, no fundo, é tudo vítima dessa merda de sistema... Tudo começa lá na molecagem, entende? Não vou ficar falando do percurso porque você entende dessas coisas melhor do que eu...

(trago no cigarro)

Entrevistadora: -Respire fundo... Continue quando puder...

Homem: -Só deixei de ser “soldadinho do governo” depois de seis meses comendo pão com banana... E só saí porque tive alguém por mim aqui do lado de fora... Mas não pensa você que tem sido fácil, não! Carrego uma tatuagem estampada... E não é no corpo não, moça... É na minha “ficha”... Faz tempo que vivo de “bicos”... Não me dão emprego fixo... E tudo são desculpas... Mas eu sei que “puxam” a minha “ficha”...

(trago no cigarro)

Homem: -Mas a gente tem de viver, não é mesmo? Então eu vivo do que me oferecem... Não acho isso vergonha...

(breve silêncio)

...Vergonha eu sinto quando olho pra minha mãe, que me criou sozinha... Pra minha avó, que fez o que pôde por mim... Do meu casamento nem falo, esse foi pro “brejo”... Mas hoje eu ensino meus filhos através do amor... Através da dor já basta a que eu carreguei e vou carregar pra sempre...

(breve silêncio)         

Entrevistadora: -Gostaria de acrescentar mais algum fato?    

Homem: -Não, moça! Não tenho mais nada pra contar... Tenho um “bico” pra fazer ainda hoje...

Homem (levanta-se da cadeira, toma o último gole de cerveja e despede-se da entrevistadora): -Fica na fé, irmã... Depois me fala se a minha história te serviu pra alguma coisa...

(Homem dá de costas e vai embora)

Entrevistadora (dirige-se à plateia e esclarece): -O entrevistado pediu para não ter seu nome citado... Nem mesmo aceitou um nome fictício... Apenas a história, que, nas palavras dele:

“É igual a de milhares por esse mundo afora, moça...”


ENTREVISTA ENCERRADA


Expressão “soldadinho do governo”: o homem refere-se ao fato de ter usado um uniforme amarelo durante os seis meses no presídio.


Éd Brambilla. O INFERNO É MAIS NO FUNDO. Entrevista. 02/12/2015.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

EU "ME CAIO"




O céu tem estrelas
Onde cantam os querubins;
Meu coração tem belezas
Como as flores dos jardins.

Me invadem as lembranças,
Nos sonhos eu "me Caio";
Sereno, navego em bonanças;
De aleluia - contente - "eu Caio".



Éd Brambilla. Poesia. EU "ME CAIO". 06.07.2016.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

O QUE TE FAZ FELIZ?

Muitos generalizam uma condição onde os humanos só conseguem ser realmente felizes se possuírem bens materiais e realizarem desejos que requer dinheiro. Tem muita gente espalhada pelo mundo afora que usufrui da verdadeira felicidade com o pouco que consegue conquistar - não por falta de garra para alcançar coisas maiores, mas devido a tantos porquês que o mundo impõe como barreiras. Algumas pessoas conseguem administrar bem suas condições de vida (sejam as que têm pouco ou as que têm muito), e outras, ao contrário, procuram argumentos para o que consideram uma frustração (o "não ter"), para amenizar a falta de sensibilidade para compreender a vida, que se explica sob uma ótica que inclui mundo exterior e mundo interior. Nem sempre o que se busca está do lado de fora. Um olhar mais sensível ao nosso mundo interior, muitas vezes, traz revelações que fazem a vida dar um giro (positivo) certeiro no que realmente nos faz felizes. E quando tanta gente não consegue, mesmo com muito esforço, enxergar o que precisa para ser feliz, projeta no outro, inclusive nos animais (que são genuinamente felizes porque não necessitam "ter", mas apenas "viver" das ofertas da natureza), a sua frustração, e, de uma maneira pseudo-positiva, reverencia a felicidade que vislumbra no outro, quando, na verdade, o sentimento é de cobiça. Neste ponto, sim, concordo que os animais são verdadeiramente mais elevados que nós, seres humanos. Eu sei disso porque aprendo há quase nove anos com a Lilica, a minha "york".

Éd Brambilla. Crônica. O QUE TE FAZ FELIZ? . 03/07/2016.

sábado, 25 de junho de 2016

CORPO D'ALMA


Quando a Alma grita
E em desespero se destroça,
Também o Corpo grita –
Aniquilado – em resposta.
Vagueia o Corpo – ressequido –
Com sua Alma descomposta,
E vê, mudo, ressurgindo –
Sabe-se lá de onde –,
O fel doido e frio de outrora,
Que se lhe brotara pela fronte.
“Não para, Corpo!” – clama-lhe
A Alma; “Caminha mais longe
E sem descanso” – suplica-lhe,
Doida de horror e sem horizonte,
A negra alma em desamor.
O Corpo – trépido – não se aguenta
E, em suas reminiscências,
Tudo o que se lhe sustenta
São parcas lembranças – menos tristes –
Que lhe fugiram a sua dor e, agora,
Pesaroso, caminha o seu Amor.
“Sustenha-se, Corpo!” – grita-lhe a Alma;
“Leva-me daqui, sem demora!”, implora,
Ofegante, a Alma doida de horror.
“Não, Alma!” – responde-lhe em desafio
O Corpo ressequido que vagueia – triste –
No encalço de seu Amor.
“És tu, Alma insana, a fagulha
Que me sustenta! E se tu não
Me alimentas, que faço eu
Em teu favor?”
A Alma – ultrajada – grita.
O Corpo – maltratado – grita.
A Coragem – debilitada – grita.
O Amor – ressequido – se agita.
Alma, Corpo e Coragem se calam.
O Amor, cheio de uma vontade aflita,
Dos odores do fel da vida, corre.
Mortificado, sangrando, foge;
Desnorteado, cai, e, aos prantos, MORRE.


GÊNERO: Poema Poético
Concepções: Romântica / Gótica / Existencialista


Éd Brambilla. Poema Poético. CORPO D’ALMA. 19.06.2016.

MEU EU ESCORPIANO



Quando de mau-humor,
Sou drama "shakespeariano":
Cheio de cenas de horror,
Coisa de quem é escorpiano.


Sinto ódio de mim mesmo,
Uma vontade de sair de mim;
Meu coração vira torresmo,
Quebro pedra e até bandolim.

Se me vem muita euforia,
Fico besta de tanto humor;
Quase morro de alegria
E me esparramo de amor.

Ai, se me tiram do sério!
Fecho a cara e me rebento
Na escuridão e no mistério;
Só assim é que me aguento.

Mas quando encontro o centro,
Quero a vida e faço mil planos;
Saio todo do meu "de dentro"
E juro chegar aos mil e tantos anos.

Ah, como são os escorpianos:
Fortes, febris e ensandecidos;
Repletos de encorajamento.
São todos uns convencidos.

Éd Brambilla. POEMA. Meu eu escorpiano. 04/06/2016.

Aos escorpianos.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

MINHA PARADOXAL MÃE

Dona Mercedes, a minha essência de eterna criança que se encanta por tudo o que resplandece vida só foi possível porque nasci do teu ventre abençoado. É graças a tua alma a chama do sopro da vida que habita em mim; um pedacinho de você que carrego com orgulho e aleluia no coração. Eu sempre me emociono com suas pequenas e, ao mesmo tempo, imensas atitudes (minha paradoxal mãe). É de você que herdei o que de melhor existe em minh'alma: a capacidade de ver magia onde quase ninguém percebe; a inspiração para criar histórias (Ah, mãe, se você fosse alfabetizada! Seria uma "Cecília Meireles"!) vem da tua capacidade e imensa criatividade de contar "causos"; o meu jeito de olhar o mundo com lentes coloridas é um reflexo das tuas lentes ainda maiores e com cores ainda mais resplandecentes; a minha avidez por conhecimento vem da tua força de mulher que "conhece" sem nunca ter lido um livro sequer (minha paradoxal mãe). O meu amor por você é insondável e imensurável (segredos de amor entre duas forças “almáticas”). Quanto mais estudo, mãe, mais descubro o quanto sou pequeno perto de ti (e é exatamente esta descoberta diária que aumenta ainda mais o meu amor, a minha admiração e o meu respeito por você). Ainda vou estudar muito, Dona Mercedes, para que você aumente ainda mais de tamanho (minha paradoxal mãe). Para finalizar este texto que não admite um "FIM" (minha paradoxal mãe), apenas posso reafirmar o orgulho e privilégio de poder olhar no teus olhar de ingênua bondade com tudo e todos e dizer "MINHA MÃE!".
Amo você, Dona Mercedes!
Seu "um" entre os seus "dez" filhos.

Éd Brambilla. Carta. MINHA PARADOXAL MÃE. 10/04/2016.

sexta-feira, 18 de março de 2016

HAICAI - Borboleta



A lepidóptera:
Uma doce ingenuidade.
A borboletinha.


Éd Brambilla. HAICAI - Borboleta. 18.03.2016.

quarta-feira, 9 de março de 2016

HAICAI - Mulher


São tantas em uma –
Insondáveis criaturas.
MULHER: paradoxo.


Éd Brambilla. Haicai – Mulher. 08/03/2016.

terça-feira, 8 de março de 2016

HAICAI - Sol


Amanhece o dia,
O Sol bate nas janelas:
Ilumina a VIDA.

Éd Brambilla. Haicai (Sol). 07/03/2016.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

HAICAI - Despedida


Cerram-se os olhos para a Terra,
Voa a alma até o infinito:
O início de uma nova era.


Éd Brambilla. HAICAI – Despedida. 29/02/2016.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Haicai – Chuva


Quando a chuva cai,
Molha a natureza, sim!
Lindo fica o céu.


Éd Brambilla. HAICAI - Chuva. 28.02.2016.

HAICAI – Lua


A lua morna,
Na calada da noite,
Deita e dorme.

Éd Brambilla. Haicai – Lua. 28/02/2016.

HAICAI (Caracol)



O andar do caracol,
No sereno da manhã,
É leve como o primeiro sol.


Éd Brambilla. HAICAI (Caracol). 28.02.2016.


sábado, 27 de fevereiro de 2016

HAICAI - Cachoeira


Os pingos da cachoeira
Batem nas pedras lisas
E iluminam as clareiras.

Éd Brambilla. HAICAI. 27/02/2016.


Haicai é um poema de origem japonesa que chegou ao Brasil no início do século XX e hoje conta com muitos praticantes e estudiosos brasileiros. No Japão e na maioria dos países do mundo é conhecido como haiku.

Sobre Política...


O CARACOL

Depois de mais uma noite de aulas, chegando da faculdade, deparei-me com um caracol na entrada do "hall" do meu prédio.
Fiz um trocadilho com ele, cantarolando:
-Debaixo dos caracóis dos teus cabelos...
Na sequência, me pus a rir e disse - com zombaria - olhando bem para os seus olhinhos "caracolados":


-Caracol não têm cabelos!

Fotografei o bichinho e me despedi:

-Tchau, Sr. Caracol! Espero que encontre uma linda Sra. "Caracola" na calada da noite.


PS* Tinha uma "caracoata" de caracóis; um atrás do outro. Mas esse me chamou a atenção por ser muito grande.


Éd Brambilla. Crônica. O CARACOL. 25/02/2016.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

HAICAI - Margarida







Querida, margarida!
De tão terna e singela,
Torna-se exibida.

Éd Brambilla, HAICAI. 26.02.2016.


Haicai é um poema de origem japonesa que chegou ao Brasil no início do século XX e hoje conta com muitos praticantes e estudiosos brasileiros. No Japão e na maioria dos países do mundo é conhecido como haiku.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

O INFERNO É MAIS NO FUNDO

“Existe um inferno na Terra. Muitos vão parar lá por diversos motivos. E quando essas pessoas saem desse lugar, levam na alma uma espécie de "MARCA SOCIAL REGISTRADA"São homens e mulheres que adquirem um mesmo rosto, uma mesma história, um mesmo significado e um mesmo nome.

Qualquer nome!

No SISTEMA CARCERÁRIO, o INFERNO É MAIS NO FUNDO!
 

Entrevista (fictícia) com um ex-presidiário, numa mesinha de boteco (homem com bom vocabulário; apenas as respostas do entrevistado foram transcritas no texto; entrevistador “off”; homem bebendo e fumando o tempo todo):

            -Por que eu fui parar no inferno?!
         (breve silêncio)
         -Eu tinha três bocas pra sustentar... E nem incluo a minha na conta... Você sabe o que é isso, seu moço? Você têm mulher e filhos?
         (breve pausa para um trago no cigarro)
         -Você até pode dizer coisas do tipo “trabalho honesto”, “pedir ajuda na Assistência Social” ou “recorrer aos Amigos”... Eu tentei, seu moço!... Juro que tentei... Mas eu não tive tempo pra “blá blá blá”... Eram três bocas reclamando...
         (mais um trago no cigarro)
         -Entrei no primeiro supermercado que vi... Peguei o que precisava... Não vou mentir pro senhor, que não sou dessa laia de mentirosos que existe em todo lugar... No meio do que “de comer” tinha uma garrafa de uísque, também, porque um homem, às vezes, precisa de um consolo mais requintado...
         (mais um trago no cigarro)
         -A “piranhazinha” lá do caixa me sacaneou... Mandei ela ficar “pianinha” enquanto eu mostrava um 38 de brinquedo pra ela... A “piranha” acionou um alarme embaixo do caixa... Duas horas depois eu já estava todo ferrado...
         (mais um trago no cigarro, com olhos lacrimejando)
         -Lá no inferno que me enfiaram mal tinha lugar pra quatro... Contei mais de vinte na cela... Passei uma semana dormindo agachado debaixo de uma goteira... Só depois é que resolveram meu caso... E foi à revelia... Me enfiaram pela segunda vez no “chiqueirinho” do camburão... E dessa vez demorou bem mais que a primeira vez pra eu chegar num inferno ainda maior, seu moço...
         (breve silêncio)
         -Onde eu fiquei uma semana era só o purgatório... O inferno é mais no fundo...
         (soco na mesinha do bar)
         -Lá, rapaz... Você tem conhecimento que eu sei... Lá, você não sobreviveria... Tive de aprender a dissimular... Ninguém é culpado de nada no inferno maior... A culpa é sempre dos de fora... Toda gente presa, no fundo, é tudo vítima dessa merda de sistema... Tudo começa lá na molecagem... Entende? Não vou ficar falando do percurso porque você entende dessas coisas melhor do que eu...
         (trago no cigarro)
-Só deixei de ser “soldadinho do governo” depois de seis meses comendo pão com banana... E só saí porque tive alguém por mim aqui fora... Mas não pensa você que tem sido fácil, não... Carrego uma tatuagem estampada... E não é na cara não, rapaz... É na minha “ficha”... Faz tempo que vivo de “bicos”... Não me dão emprego fixo... E tudo são desculpas... Mas eu sei que “puxam” minha “ficha”...
         (trago no cigarro)
         -Mas a gente tem de viver, não é mesmo? Então eu vivo do que me oferecem... Não acho isso vergonha...
         (breve silêncio)
         -Vergonha eu sinto quando olho pra minha mãe, que me criou sozinha... Pra minha avó, que fez o que pôde por mim... Do meu casamento nem falo, esse foi pro “brejo”... Mas hoje eu ensino meus filhos através do amor... Através da dor já basta a que eu carreguei e vou carregar pra sempre...
         (breve silêncio)
         -É isso aí, seu moço! Não tenho mais nada pra contar... Tenho um “bico” pra fazer ainda hoje...
         (o homem levanta-se da cadeira, toma o último gole de cerveja e se despede do entrevistador):
         -Fica na fé, irmão... Depois me fala se a minha história te serviu pra alguma coisa...
         (homem vira as costas e vai embora)


ENTREVISTA ENCERRADA


Expressão “soldadinho do governo”: o homem refere-se ao fato de ter usado um uniforme amarelo durante os seis meses no presídio.

O entrevistado (fictício) pediu para não ter seu nome citado. Apenas a história, que, nas palavras dele: “É igual a de milhares por esse mundo afora, seu moço...”



Éd Brambilla. O INFERNO É MAIS NO FUNDO. Entrevista, 02/12/2015.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

FLOR-MULHER


Quando murcha uma linda flor,
Nasce outra ainda mais bela.
E na plenitude do vivo calor,
É tão linda que chega a ser singela.

E nas antíteses dos jardins da vida,
Proliferam flores de diversos matizes...
E dentre elas sempre há a mais querida,
Que enxerga a vida por ângulos mais felizes.



Na embriaguez de um verão, num terno quatro de fevereiro,
Uma flor de rara espécie se achegou mansinha para o mundo...
E não foi um broto qualquer, foi dos que se entregam por inteiro.
Porque somente flores raras nascem com coração mais fecundo.


 Cresceu o broto e transformou-se em mulher de rara beleza,
Aquecido por um objeto cujo nome é também salamandra.
Aprendeu ela com o mundo e o mundo aprendeu com sua nobreza.
É hoje a Flor-Mulher uma linda alma que recebeu o nome ALESSANDRA.


Poema-presente de aniversário para uma querida prima, Alessandra.


Éd Brambilla. POESIA.  “Flor-Mulher”. 04/02/2016.

domingo, 31 de janeiro de 2016

OS MARIMBONDOS MORIBUNDOS DE ZUMBI



Os marimbondos fizeram seus cachos no biombo
Que separa o território de Zumbi dos Palmares.
Cansados dos açoites da vara dos temidos capatazes,
Foram eles, moribundos, curar suas carcaças no Quilombo.

Os moribundos marimbondos, então, recuperaram a saúde.
Feridos em suas essências, juntaram-se à guerra de Zumbi,
Perseguido por Caetano de Melo e Castro, de forma amiúde.
Covarde, Melo recorreu a Domingos para a captura de Cazumbi.

Domingos, com seus seis mil homens armados até à gola,
Em 1694, não deu trégua e seguiu com sua pesada artilharia;
Capturou Antônio Soares, um traidor que se intitulava quilombola.
Soares, o falso guerreiro, entregou seu protetor por uma ninharia.

Domingos Jorge Velho deu fim a Zumbi numa fria emboscada.
Velhaco, o bandeirante dependurou a cabeça de Cazumbi num mastro,
Plantado numa praça do Recife, para servir de exemplo à gente escravizada.
Sem o HERÓI, em torno de 1710, o quilombo apagou de vez o seu rastro.


Éd Brambilla. Poesia Histórica.
“Os Marimbondos moribundos de Zumbi”.
31/01.2016.