ALMa RaBiScAdA

quinta-feira, 19 de julho de 2018

ANTÍTESE


NÁUSEA CEREBRAL


Primeiro dá um nó na garganta
Depois vem uma lágrima que escorre
Lembranças indigestas se inflamam:
Impiedosas, nenhuma me socorre.

O cérebro, zoado, rodopia a mente
Que tenta fugir das lembranças
Que se riem intempestivamente
Da rabugem que é a destemperança.

A mente foge entre passos nauseados
E pisa nas carcaças de velhas dores
Deitadas no solo arenoso do passado:
Frágil cemitério de rusgas e dissabores.

Recupera-se o cérebro, aos trancos
Cambaleante, lança a mão à mente
Que segura a mão amiga, aos prantos:
Encharcada, volta a mente ao consciente.

Éd Brambilla. Poesia. NÁUSEA CEREBRAL. 17/07/2018.

SOBRE AMOR, VIDA E MORTE

Quando o amor (em todas as suas vertentes) é verdadeiro, não existem obstáculos que o detenha. AMOR, simplesmente AMOR, sem conceitos, preconceitos, ideologias e outras firulas.
O tempo é implacável. No final, o que sobra é a certeza da morte.
Morrer na plenitude de lembranças boas por se ter tido coragem de ser, fazer e viver tudo o que a vida pediu, é uma aleluia.
Morrer na resignação de arrependimentos de tudo o que se deixou de ser, fazer e viver, por medo, covardia ou preguiça, é um martírio.


Éd Brambilla. Crônica. SOBRE AMOR, VIDA E MORTE. 10.03.2018.

DAS CONSTRUÇÕES IDEOLÓGICAS

Construções ideológicas sempre funcionaram como cabrestos para os carrascos sociais que, numa ou noutra esfera do pensamento, de alguma forma (seja através da ciência, da filosofia, da teologia, da filologia etc.), encontraram os panoramas perfeitos para manipular o pensamento da grande massa. Quando temos a oportunidade de entender e aprendemos a ler nas entrelinhas das intenções por trás do "pensamento tirano", passamos a ser protagonistas de nossos pensamentos; passamos a pensar através de nós mesmos. Claro que precisamos (SEMPRE) do "outro" como termômetro de nossas próprias construções e ressignificações. Quando chegamos ao ponto de compreender que as construções também se fazem em nós e passamos a aplicá-las no coletivo, respeitando (SEMPRE) o que está fora de nós (mas que ao mesmo tempo também ESTÁ, de certo modo, em NÓS), encontramos aí uma possível liberdade. E nossos pensamentos (meu e dos outros) fluem com mais leveza e responsabilidade.



Éd Brambilla. DAS CONSTRUÇÕES IDEOLÓGICAS. 01.06.2018.

REFLEXÃO ANTES DE TUDO

As analogias metafóricas de Friedrich Nietzsche são realmente fantásticas. Um grande pássaro, visto na imensidão do céu, torna-se minúsculo aos olhos daqueles que o vislumbram do chão. E o mesmo vale para o pássaro que enxerga tudo muito pequeno aquilo que está em terra firme. Aprender a voar está ao alcance de todos. Enxergar "pequeno", seja quem está no alto ou quem está no baixo, é uma questão muito ligada à educação, caráter, hombridade, sensibilidade... Os que estão no "alto" têm o dever moral de posicionar-se - através dos conhecimentos adquiridos - no lugar dos que estão no "baixo". E isto é possível através do nivelamento, onde quem "aprendeu mais" deve deixar de lado os seus saberes "técnicos-científicos-filosóficos" para mergulhar no espaço do lago do outro, que aprendeu menos ou nem aprendera esses saberes. Infelizmente, o "diabo" (força de expressão), que se manifesta de diversas formas, como dinheiro, poder, ganância, soberba, presunção etc., é que a maioria das pessoas (tanto as do "alto" quanto as do "baixo") não possui ou se nega a adquirir imunidade contra os "venenos sociológicos". Antídotos existem: "empatia", "resiliência", "compaixão", "solidariedade", "amorosidade", entre outros. Aos que "se vêem" no "alto" e compreenderam efetivamente este texto, expliquem-no aos que "se vêem no "baixo"; todavia, é preciso muita cautela, pois, muitos, principalmente os que enriqueceram independentemente de nível de letramento, acreditam que o "ter" e o "poder" suplantam todo o resto. Reflexão antes de tudo.

Éd Brambilla. REFLEXÃO ANTES DE TUDO. 03/06/2017.

CONEXÃO COM LISPECTOR

Certa vez Clarice Lispector escreveu um texto e, assustada com o que escrevera, deixou o conteúdo sem um final. E intimou:

"Quem quiser que o termine".

Embora já tenha se passado mais de quarenta anos, espero que goste do meu final, dona C. L.:

CLARICE:

[...] -Que fará minha alma sem um corpo para sofrer? Aonde terá suas angústias? Precisará andar de porta em porta, pedindo fresta por onde entrar. Doerei no vento que bate nas janelas e..."

ÉD BRAMBILLA:

"...num suave repousar de folhas de outono, minh'alma deitará serena e preencherá o vazio daquilo que ainda nem se sabe ser o vazio d'alma".

MORTIFICAÇÃO

Tem dia que a vida cansa
Tudo ao redor se lança ao breu
Até mesmo a poesia desencanta
Assim como nada escapava à ira de Orfeu.

Eu, que protejo um vasto mundo,
Não consigo libertá-lo da dor
Têm abismos que são tão profundos,
Que no fundo é tudo lodo e desamor.


O mesmo sopro que anuncia a vida
Traz em si o abstrato da morte
O Homem tenta boicotar sua partida
Resignado, entrega-se à própria sorte.

No mármore solene da eternidade
Jazem ricos e pobres, doutores e iletrados
Muitos, imaculados de insanidade,
Não deixam suas marcas, apenas parcos legados.

Éd Brambilla. Poesia. MORTIFICAÇÃO. 24/06/2018.

Concepções: gótica-romântica-existencialista.

ALMA GENTIL

O teu sorriso largo
Na tua alma grande
Neutraliza o amargo
E o amor inflama.
Tua essência é chama
Que acende a alegria
Daqueles que tu amas:
Delicada troca de energias.
Carregas no semblante
A verdade e a magia,
Nem pouco nem bastante:
A medida certa da empatia.
A cada porto, menina, novas histórias!
Assim é que vais espalhando tua beleza
E semeando carinho em tantas memórias,
Que brindam N'almas tua gentil natureza.


Éd Brambilla. Poesia. ALMA GENTIL. 28/06/2018.

Para Alzira Sampaio, uma rara flor que enche de verdadeira cor e sutil perfume os jardins por onde passa.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

O RELÓGIO TEIMOSO


O relógio gira o ponteiro,
Mas o tempo parou.
Relógio sorrateiro.
As horas passam,
Fecham mais um ciclo.
Tempo que transbordou.
A vida é cíclica.
O tempo parou ou a vida secou?
O momento seguinte suplanta o momento anterior.
E o momento "agora" acontece.
Aproveito.
Mudo a cor do meu instante:
Aconteço; sou; transbordo.
E o "depois" vem mais vibrante.


Éd Brambilla. Poesia. O RELÓGIO TEIMOSO. 12/01/2018.

AH, BELMONTE!


E na pequena Biblioteca Municipal de Belmonte/BA, seduzido pela saudosa máquina de escrever, pedi autorização ao bibliotecário para compor um poema em homenagem à cidade. Meia hora depois, entreguei-o com solenidade. O poema ficará exposto numa vitrine, junto às obras de poetas belmontenses.

AH, BELMONTE!

Caminhei, sereno, pelas ruas de Belmonte.
As casas, todas elas congeladas no tempo.
A cidade, toda ela traçada de horizontes.
Eu, imbuído de História, entreguei-me ao momento.



Ah, Belmonte de belezas risonhas!
Banhada dum lado por um negro mar;
E doutro Bahia a beijar Minas no Jequitinhonha.
Testemunha desse encontro, restou-me contemplar.

Voltei a minha terra em estado de bonança.
Levei na mala a cor e o cheiro de Belmonte;
E na memória tantas belas lembranças,
Que para este poema serviram-me como fonte.


Não disse "Adeus!", apenas "Até mais, bela cidade!"
Se a mim cativastes, também eu deixei meu calor.
Tudo tornou-se uma delicada saudade.
Noutro tempo, quero eu renovar todo esse sabor.

BRAMBILLA, Éd. Poesia. "Ah, Belmonte!". 18.01.2018.



segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

"A GENTE" QUE RENEGA "AS GENTES"

Falo sobre "a gente" que tem uma "opinião inquestionável" para tudo e, no entanto, tem dificuldade de se levantar do lugar até mesmo para fugir de um incêndio para salvar a própria vida.

Falo "da gente" que quer ditar o que é moral, amoral e imoral a partir das próprias "verdades" e não é capaz de compreender nem mesmo um ínfimo pedido de socorro de quem está debaixo do mesmo teto.

É "uma gente" que diz as frases 'Eu te amo!' e 'Eu não te amo!' como se entre elas não houvesse nenhuma dissonância.

"Essa gente" pensa ser mais gente porque ACREDITA estar minuciosamente engajada num bom e velho padrão social – estritamente convencionado.

Em "Assim Falava Zaratustra", de Friedrich Nietzsche, na crônica "Ler e Escrever", tem uma curta e contundente observação que expressa, sem o menor pudor, o espírito assassino que "essa gente", de tão cega pela hipocrisia, nem desconfia que tem: "[...] Não é com ira, mas com riso que se mata. [...]

E assim tem feito "essa gente" de espírito aprisionado. Gente que tem matado com um riso superficial, ao mesmo tempo aniquilador, quando constata que um semelhante seu não se assemelha, não se encaixa e não aceita completamente o bom e "irretocável" padrão social. "Essa gente" aniquila "gentes" usando uma ou outra crença como escudo. "Gente" que esconde "gentes" porque a "moral" deve ser preservada. "Gente" banhada em preconceito, talhada pela intolerância e ignorância.

Quão pobre é "essa gente"! "Uma gente" que não se dá conta de que carece de autoestima. Que, por mal conseguir sustentar a si mesma, abomina e foge "das gentes" de espírito livre.

Para "essa gente" falta empatia. Sem empatia, não há evolução. Sem evolução, "essa gente" dificilmente descobrirá as próprias falhas. E se descobrir, não saberá lidar com elas. Não sabendo lidar com elas, as negará. Negando-as, sempre buscará uma forma de culpar o outro. A culpa no outro é um antídoto para "essa gente". Suas falhas deixam de existir. A culpa é "das gentes". E "essa gente", enquanto negligenciar a existência mentirosa a qual está submetida, enquanto não permitir-se evoluir, jamais conhecerá o sabor, a leveza e a hombridade "das gentes" cujas essências flutuam. Flutuam porque aprenderam a mergulhar em si mesmas. Lutaram contra seus medos, conflitos e angústias; venceram. E "essa gente" nunca entenderá o real significado de verdadeiramente SER.

Há "gente" que nunca mudará de opinião e há "gente" que ainda tem a chance de mudar de opinião através do amor incondicional. Para esta última "gente", luz.

A "essa gente" desejo que ao menos sintam desejo de se libertar.

Éd Brambilla. Crônica. "A GENTE" QUE RENEGA "AS GENTES". 24/12/2017.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

PRUMIFORME

Gosto de ser Eu
Nem tanto à Luz
Nem tanto ao Breu
Quero bem a muita Gente
Umas pessoas são como Cruz
Outras, iminência dum Adeus
Para algumas sou Indiferente
Para outras, leve Alegria
Gosto das gentes d’alma Nua
Com quem posso trocar Sintonia
Fujo das gentes d’alma Crua
Sou do Todo um Pouco
Duns poucos, tenho Muito
Não alcanço ser “o Louco”
Nalguns momentos sou Intuito:
Um pé no chão, outro no coração
Noutros momentos sou todo impulso:
Cego de Consciência e mudo de Razão



Éd Brambilla. Poesia. PRUMIFORME. 12/12/2017.

sábado, 2 de dezembro de 2017

VERTIGEM

Ei, você, ouça, estou aqui!
Sincero, um pouco confuso
Nem misterioso nem profuso
Venho suave nas asas dum colibri.

Meu voo, tênue, corta o sol
Na pele, sinto a sua ardência
É leve como um ‘si bemol’
Quase uma nota de advertência.

O corpo, estranho, foge da mente
Assustado, busca uma compreensão
De que serve mergulhar na razão
Se o coração bate intermitente?

E rapidamente a razão vira mar
Fecho os olhos, a mente, o coração
Quanto mais sôfrego me ponho a nadar
O mar, capcioso, faz tudo virar canção.


Éd Brambilla. Poesia. VERTIGEM. 02/12/2017.



sábado, 14 de outubro de 2017

PRECE AO PROFESSOR (Paródia)

Professor nosso de todo dia,
Nobre é a tua vocação.
Bem-vinda seja a tua paciência,
Seja na escola pública ou privada.
O conhecimento que nos legai hoje
Será o nosso alicerce do amanhã.
Perdoai as nossas falhas
Porque aprendiz um dia fostes.
Não nos deixeis a escola abandonar,
Livrai-nos de muita ignorância,
Parabéns!


Éd Brambilla. Poesia (Paródia).PRECE AO PROFESSOR.2010.
Minha singela homenagem aos "profos" e "profas" do
mundo todo, em especial aos "brazucas".

sexta-feira, 2 de junho de 2017

LAMBE-LAMBE, BEIJO-BEIJO


Um lambeijo DELA
Vale por mil CORES,
Incontáveis AQUARELAS
E mais de mil SABORES.


Mil lambeijos DELA
São cem mil AMORES
Bailando sob UMBELAS
Donde caem mil RANCORES.


Lambeija-me todo ELA;
Beijolambo-a toda EU;
Ela é minha CURATELA;
E nela encontro o APOGEU.

É o teu lambeijo no meu BEIJO;
E o meu beijo no teu LAMBEIJO;
É tanto lambe-lambe no BEIJO-BEIJO,
Que tudo é um vai-e-vem no ACOLEIJO.

Éd Brambilla. Poesia. "Lambe-Lambe, Beijo-Beijo".02/06/2017.

UMBELA: [...] uma inflorescência em forma de guarda-chuva [...]
CURATELA: [...] de "curador (a)", que tem a tutela de outrem [...]
APOGEU: [...] o grau mais elevado [...]
ACOLEIJO: [...] o mesmo que balanço [...]

sexta-feira, 5 de maio de 2017

PARANOIA

I. Maria Felicitá quer ser 'normal'

Nesta história o nome da cidade onde a trama se desenrola é Penápolis. É que Penápolis vem de pena – creio eu. E pena é bom para fazer cosquinha na barriga da gente porque rir é bom demais. E a risada frouxa da cosquinha é a melhor coisa do mundo porque é uma risada arrancada de espontâneo.

No bairro do Pó-de-Mico, em Penápolis, vive Maria Felicitá, que se ri de cócegas, de tombo alheio, de gente que escorrega na casca de banana, de gente peidorreira, de mico-leão-dourado que vive na eminência do ‘acabou-se o que era doce’, de tudo a moça se acaba de tanto se rir.

Maria é pura alegria. Em velório ela costuma rir com vontade. Mas é uma vontade cheia de responsabilidade: ela não ri do defunto. Isto é que não. Maria tem medo de assombração; só ri das situações estereotipadas de velório superficial onde ninguém nem está aí com o morto. Quando o velório é sério, Maria fica séria também.

Ocorre que de um tempinho para cá Maria Felicitá vinha sentindo-se meio incomodada com tanta alegria. Ela andou lendo numa revista de psiquiatria sobre transtornos obsessivos compulsivos, bipolaridade, síndrome do pânico, depressão, ansiedade, aracnofobia, homofobia, gatofobia, gentefobia, tudofobia, todos esses transtornos que sempre existiram e só puseram nomes recentemente.

-Gente, quanta gente transtornada! – disse transtornada com tanto transtorno a alegre Maria para si mesma.

E agora Maria Felicitá se pôs ressabiada pensando que é anormal. Pior: enfiou na cabeça que sofre de exclusão social transtornante. Isto lá na maneira de pensar dela.

Num domingo bem cedinho lá foi Maria na banca do Zé Debochado comprar o novo número da tal revista que fala de psiquiatria e de todos esses assuntos do mundo dos miolos. E tinha reportagem falando de uma famosíssima psiquiatra, a doutora Zigmunda Fróida, especialista em desenvolver todo tipo de transtorno já nomeado e até transtorno que ninguém botou nome ainda. E a doutora era perita em desmiolices e batizou tudo quanto foi transtorno pagão.

-Dois mil reais custa uma consulta com a dona Fróida?! – fez Maria Felicitá toda espantada.

Mas Maria não podia esperar. Juntou uma televisão de led, um microsystem, um microondas, uma secretária eletrônica, um ‘mico-leão-dourado’ e um I-Pod G8 Três Vírgula Quatro Polegadas e Meia. E tudo ela vendeu para o muambeiro Tião Sorriso por mil e oitocentos reais. Tião Sorriso é muito esperto. E Maria muito besta.

-Não tenho medo de pechinchar, não – falou Maria para as paredes. –Dona Fróida vai me dar um desconto que eu sei; ninguém é bobo pra dispensar bufunfa assim.
E lá se foi Maria atrás da doutora Zigmunda.

II. A consulta com a Doutora Zigmunda Fróida

Na recepção da psiquiatra, Maria Felicitá sentou-se numa poltrona imitando um sapato de salto alto. Ela gostou e riu muito. E reparou num quadro na parede à sua frente.

“Santo deus! O que será aquele rabisco comprido que tem só um pezorro?!” – pensou Maria toda curiosa e pasmada. “Saci não é porque não tem gorro vermelho nem cachimbo na boca” – concluiu nos alegres miolos.

Maria não tinha aprendido nada sobre artes. Ela só tinha aprendido a rir de tudo. Nunca falaram do Abaporu para ela. E o retrato era mesmo o Abaporu, da Tarsila do Amaral, que foi casada com Oswald de Andrade, mas o casamento nem deu muito certo.
Nisso a secretária da doutora Fróida, a Zefinha Rabugenta, mandou Maria entrar na sala da psiquiatra porque era a vez dela. E Zigmunda não podia perder tempo.

-Acha! Tempo é dinheiro... ninguém tem tempo pra perder com gente alegrinha assim! – disse Zefinha toda desacreditada com a alegria de Maria.

E lá foi Maria de alegrinha ter com a grandessíssima entendedora de cabeças.

-Entre, darling – disse calmamente a doutora. –Deite-se no divã e vá logo desembuchando o que é que você tem, meu bem!

Maria obedeceu rapidamente porque se lembrou da essência das palavras de Zefinha Rabugenta: “Tempo é dinheiro e ninguém tem tempo pra perder com gente alegrinha assim”. Só ela, Maria, é que era toda feliz.

-Não tenho nada, não, dona Fróida!

-Não?! – espantou-se a doutora.

-Mas vim aqui pra ver se arranjo alguma coisa qualquer – emendou sem demora a moça que padecia de felicidade.

-Hum! Vejo que você é ajuizada, baby – disse satisfeita a psiquidoida.

-Mas só tenho mil e oitocentos reais... mais, eu não tenho, não!

-Oh, honey, não se preocupe! Sempre tenho uma coisinha ou outra que cabe direitinho no bolsinho de cliente brasileiro. Ah, se tenho!

E lá foi a doutora muita sabida na direção de uma estante repleta de tudo quanto era transtorno mental.

-Como é a sua primeira vez, litle girl, vamos devagar porque devagar se vai ao longe – advertiu a médica.

E falou isso coçando o queixo com a mão esquerda enquanto a mão direita tateava as prateleiras das delícias transtornativas.

De repente a psiquiatra fez: -Oh!!!

-Encontrou, doutora?! – perguntou Maria já toda imbuída só com a iminência de um transtorno que lhe entristecesse a alma e a incluísse na sociedade dos transtornados.

-Esquisiotepatia Tripolárica Sorumbática!!! – gritou com muita satisfação na voz a inventora de doidices.

-Que diabo é isso?! – quis saber Maria toda escalafobética.

-Um transtorno que criei já vai algum tempinho... só estava esperando a pessoa certa para prescrever.

-Eu, que sou toda errada, sirvo pra ser a pessoa certa, dona Zigmunda? – ressabiou-se Maria Felicitá no fazer da pergunta.

-Oh, of course que sim! – atestou a doctor que é da terra do Tio Sam e aprendeu a falar Português para escarafunchar com êxito as cacholas do Brasil.

E veio a prescrição:

-Um comprimido de manhã bem cedinho e um bem à noitinha, antes dos braços de Morfeu – e assegurou bem para Maria:

-Honeyzinha, não se preocupe com os efeitos colaterais dos primeiros quarenta dias do tratamento, que são alegria triplicada e sentimentos de amor exagerados.

-Ai, meu deus!!! Não corro o risco de morrer com tanta felicidade, dona Fróida?!

-Jamais, darling! Será só no começo… depois de quarenta dias, vocezinha sentirá uma tristeza e uma melancolia tão incomensuráveis que nunca mais se lembrará da menor alegria que possa existir neste mundo de gente desregulada pela felicidade.

-Oh, doutora Fróida, que alegria! Não é todo dia que se encontra uma especialista em sandices.

E Maria voltou para casa, lá no bairro do Pó-de-Mico, toda contentinha porque em breve seria tão esquisiopatética como toda aquela gente da revista de psiquiatria.

III. Morra, Maria, morra com Poesia!

Nos primeiros vinte dias de tratamento, a moça não se aguentava de tanto se rir. Se mijava toda de tanta ALEGRIA. No trigésimo dia, Maria estava insuportavelmente feliz. Achou até que MORRERIA.
“Pelo menos morro feliz”, matutou na cabecinha cheia de TONTERIA.
Quando completaram-se os quarenta dias de tratamento, a doida, no mais alto clímax de felicidade, já pedindo passarinho em namoro, disse para si mesma, com muita HISTERIA:
-Enfim, amanhã ficarei SO - RUM - BÁ - TI – CA!!!
Ficou nada.
Na madrugada do quadragésimo para o quadragésimo primeiro DIA, o coração de Maria explodiu de tanta EUFORIA.
Morreu com os olhinhos arregaladinhos e bem brilhantes. A boca parecia que tinha triplicado os dentes de Maria, de tanto que ela SORRIA.
A doutora Fróida soube do acontecido e foi consultar as bases. Tinha prescrito comprimido de “cannabis sativa” para Maria em vez de comprimido para Esquisiotepatia Tripolárica Sorumbática.
E foi assim que Maria Felicitá – que era toda ALEGRIA – morreu de overdose de tanto gozar de felicidade e sonhos de ORGIA.

Éd Brambilla. Conto. PARANOIA. 2016.

Registrado na Biblioteca Nacional do Rio de janeiro.

Conto premiado com o 3° lugar no “CONCURSO DE CONTOS UNIP 2017”, em 04/05/2017.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

LILICA & EU

Minha Lilica e eu:
Um "lambeijo" dela
E um carinho meu.
Pequenina e bela,
Seu amor me mordeu.
Meu amor é ela...
E o amor dela sou eu.
Éd Brambilla. Pequenas Poesias. LILICA & EU. 31.05.2017.

O SOFRER E O PASSARINHO

Cansa o SOFRER,
Como cansa o passarinho
Em um longo voo.
Pousa o SOFRER,
Como pousa o passarinho
Depois de um longo enjoo.
É tanta náusea no AMAR,
Que o amante se cansa.
Mas da náusea do VOAR,
O passarinho apenas descansa.
Sábio é esse pequeno com asas,
Que, pousado, cantarola POESIA
E, sôfrego, com o coração em tic-tac,
Refaz-se todo em pura ALEGRIA.
E o amante, em seu pouso DESOLADO,
Esquece o seu SOFRER
E busca novamente a náusea do AMAR
Por puro desejo de ser AMADO.


Éd Brambilla. Poesia. O SOFRER E O PASSARINHO. 02/05/014.


domingo, 5 de março de 2017

OS MARIMBONDOS MORIBUNDOS DE ZUMBI



OS MARIMBONDOS MORIBUNDOS DE ZUMBI

Os marimbondos fizeram seus cachos no BIOMBO
Que separava o território de ZUMBI DOS PALMARES.
Cansados dos açoites da vara dos temidos CAPATAZES,
Foram eles, moribundos, curar suas carcaças no QUILOMBO.
Os moribundos marimbondos, então, recuperaram a SAÚDE.
Feridos em suas essências, juntaram-se à guerra de ZUMBI,
Perseguido por Caetano de Melo e Castro, de forma AMIÚDE.
Covarde, Melo recorreu a Domingos para a captura de CAZUMBI.
Domingos, com seus seis mil homens armados até à GOLA,
Em 1694, não deu trégua e seguiu com sua pesada ARTILHARIA.
Capturou Antônio Soares, um traidor que se intitulava QUILOMBOLA.
Soares, o falso guerreiro, entregou seu protetor por uma NINHARIA.
Domingos Jorge Velho deu fim a Zumbi numa fria EMBOSCADA.
Velhaco, o bandeirante dependurou a cabeça de Cazumbi num MASTRO,
Plantado numa praça do Recife, para servir de exemplo à gente ESCRAVIZADA.
Sem o HERÓI, em torno de 1710, o quilombo apagou de vez o seu RASTRO.

Éd Brambilla. Poesia Histórica.
“Os Marimbondos moribundos de Zumbi”.
31/01/2016.

REGISTRADO NA BIBLIOTECA NACIONAL.

quarta-feira, 1 de março de 2017

CORPO D'ALMA




CORPO D'ALMA

Quando a Alma grita
E em desespero se destroça,
Também o Corpo grita –
Aniquilado – em resposta.
Vagueia o Corpo – ressequido –
Com sua Alma descomposta,
E vê, mudo, ressurgindo –
Sabe-se lá de onde –,
O fel doido e frio de outrora,
Que se lhe brotara pela fronte.
“Não para, Corpo!” – clama-lhe
A Alma; “Caminha mais longe
E sem descanso” – suplica-lhe,
Doida de horror e sem horizonte,
A pungente alma em desamor.
O Corpo – trépido – não se aguenta
E, em suas reminiscências,
Tudo o que se lhe sustenta
São parcas lembranças – menos tristes –
Que lhe fugiram a sua dor e, agora,
Pesaroso, caminha o seu Amor.
“Sustenha-se, Corpo!” – grita-lhe a Alma;
“Leva-me daqui, sem demora!”, implora,
Ofegante, a Alma doida de horror.
“Não, Alma!” – responde-lhe em desafio
O Corpo ressequido que vagueia – triste –
No encalço de seu Amor.
“És tu, Alma insana, a fagulha
Que me sustenta! E se tu não
Me alimentas, que faço eu
Em teu favor?”
A Alma – ultrajada – grita.
O Corpo – maltratado – grita.
A Coragem – debilitada – grita.
O Amor – ressequido – se agita.
Alma, Corpo e Coragem se calam.
O Amor, cheio de uma vontade aflita,
Dos odores do fel da vida, corre.
Mortificado, sangrando, foge;
Desnorteado, cai, e, aos prantos, MORRE.

GÊNERO: Poema Poético
Concepções: Romântica / Gótica / Existencialista

Éd Brambilla. Poema Poético. CORPO D’ALMA. 19.06.2016

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

ALUMIAR



A luz branca da lua
Deitada na negra pele tua
Te alumia a alma crua

A claridade da lua
No teu corpo se inflama
E te deixa a essência nua

Tua nua alma luminosa
Glorifica a tua essência
Com mil fagulhas gloriosas

E nos teus beijos alumiados
Fagulham mais de mil desejos
E ficamos ambos enluarados

Éd Brambilla. Poesia. ALUMIAR. 15/02/2017.



terça-feira, 20 de dezembro de 2016

OS INSTINTOS DE UMA FÊMEA E AS QUATRO ESTAÇÕES

RECOMENDAÇÃO EXPRESSA: este texto é para ser lido com os instintos; abstenha-se dos filtros ideológicos. Boa leitura! 

PRIMAVERA:

De repente a menina se olhou no espelho: sentiu-se tomada de uma mulherice inesperada. Encheu-se de reminiscências; ela entendeu que era uma contemplação diferente das anteriores: havia um brilho lânguido no olhar; um cheiro vago de calidez escapou-lhe pelos poros; e o ar morno da primavera era como uma promessa de desabrochamento sutil. A menina então se deu conta: “Estou pronta!” – pensou. É a convocação de sua natureza para o ato de renovação da vida; o verdadeiro exercício do amor incondicional. E a mulherzinha passou então a cantarolar suas querências. Seu olhar, agora, imbuído de um interesse perene, vasculhava os arredores à procura da metade que lhe fora reservada. O tempo passou e ela sentiu a temperatura da pele mais vibrante; estava mais sucumbida à entrega. Entrou o verão.

VERÃO:

A mulherzinha tornou-se mulher, cheia de uma plumagem nova e bela. Ela passou a sentir os sobressaltos dos desejos a sacudir-lhes as entranhas. É tempo de amar, de copular, de renovar. Nunca os verbos foram tão urgentes na existência da nova mulher – também ela agora toda urgente. E veio então a entrega. Foi assim: em uma noite de atmosfera abafada, de um calor que não se apaga com um refresco de água gelada; o corpo nu sobre um lençol úmido de secreções libidinosas; concentrada em si mesma, mole, receptiva, ardente. Um gemido ecoou grave e entrecortado. Sentiu-se completa. Deixou-se largada por um tempo; um sorriso anacrônico se fez em seu rosto. Adormeceu nos braços de seu homem. E novamente o tempo passou e a mulher sentiu um vento fresco a soprar-lhe as têmporas. Era o outono se aproximando.

OUTONO:

A mulher, copulada, sentia um desassossego na alma e não entendia seus novos desejos, tão esquisitos e ao mesmo tempo tão cheios de promessas de sabores nunca antes experimentados. Acordou com vontade de comer perninhas de rã com doce de leite. Estava fecundada. Passou a mão pelo ventre e balbuciou uma prece: “Oh, Deus Misericordioso! Benditos sejam os teus ouvidos e benditas sejam as tuas mãos santas! O milagre agora está em mim, na pureza do meu ventre sagrado. Amém!” E adormeceu - com as mãos em concha no abdômen - estirada em uma rede, grávida de um fruto novo. Teria agora um amor para todo o sempre. O tempo correu. A mulher, em seu sagrado lar, sentada ao pé da pequena escada que dá para o jardim, perdia-se em lembranças doces. Um frio gelado arrepiou-lhes os pelos dos braços. Chegou o inverno.

INVERNO:

A velha mulher, agora, acariciava delicadamente a pele do rosto, e, através de sua beleza madura, recordava-se dum tempo florido, seguido de um tempo que ardia em chamas nas entranhas de sua alma. Pensou na chegada do filho - num outono remoto - e o quanto deleitara-se com as suas necessidades de mãe. Pensava também nos netos. O seu abençoado fruto também produzira outros novos frutos. Sentia-se feliz e realizada. Olhou para o céu e viu poucas estrelas – já era noitinha. Fixou os olhos na estrela mais brilhante e agradeceu ao Deus a vida serena que até ali tivera. Pouco tempo depois, sentiu o corpo desfalecer sobre o assoalho de madeira da varanda. Seus olhos semicerraram-se instintivamente: uma linda adivinhação de partida. Um suspiro curto e profundo fora a medida certa para a suave separação entre corpo e espírito da abençoada mamãezinha. Partiu: sem dor; sem mágoas. Levou apenas a essência que lhe era própria, E deixou para os seus frutos joias raríssimas lapidadas em forma de amor maternal. Fica em paz, oh, doce mulher!

Éd Brambilla. Crônica. OS INSTINTOS DE UMA FÊMEA E AS QUATRO ESTAÇÕES. 18/10/2014.