ALMa RaBiScAdA

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

OS INSTINTOS DE UMA FÊMEA E AS QUATRO ESTAÇÕES

RECOMENDAÇÃO EXPRESSA: este texto é para ser lido com os instintos; abstenha-se dos filtros ideológicos. Boa leitura! 

PRIMAVERA:

De repente a menina se olhou no espelho: sentiu-se tomada de uma mulherice inesperada. Encheu-se de reminiscências; ela entendeu que era uma contemplação diferente das anteriores: havia um brilho lânguido no olhar; um cheiro vago de calidez escapou-lhe pelos poros; e o ar morno da primavera era como uma promessa de desabrochamento sutil. A menina então se deu conta: “Estou pronta!” – pensou. É a convocação de sua natureza para o ato de renovação da vida; o verdadeiro exercício do amor incondicional. E a mulherzinha passou então a cantarolar suas querências. Seu olhar, agora, imbuído de um interesse perene, vasculhava os arredores à procura da metade que lhe fora reservada. O tempo passou e ela sentiu a temperatura da pele mais vibrante; estava mais sucumbida à entrega. Entrou o verão.

VERÃO:

A mulherzinha tornou-se mulher, cheia de uma plumagem nova e bela. Ela passou a sentir os sobressaltos dos desejos a sacudir-lhes as entranhas. É tempo de amar, de copular, de renovar. Nunca os verbos foram tão urgentes na existência da nova mulher – também ela agora toda urgente. E veio então a entrega. Foi assim: em uma noite de atmosfera abafada, de um calor que não se apaga com um refresco de água gelada; o corpo nu sobre um lençol úmido de secreções libidinosas; concentrada em si mesma, mole, receptiva, ardente. Um gemido ecoou grave e entrecortado. Sentiu-se completa. Deixou-se largada por um tempo; um sorriso anacrônico se fez em seu rosto. Adormeceu nos braços de seu homem. E novamente o tempo passou e a mulher sentiu um vento fresco a soprar-lhe as têmporas. Era o outono se aproximando.

OUTONO:

A mulher, copulada, sentia um desassossego na alma e não entendia seus novos desejos, tão esquisitos e ao mesmo tempo tão cheios de promessas de sabores nunca antes experimentados. Acordou com vontade de comer perninhas de rã com doce de leite. Estava fecundada. Passou a mão pelo ventre e balbuciou uma prece: “Oh, Deus Misericordioso! Benditos sejam os teus ouvidos e benditas sejam as tuas mãos santas! O milagre agora está em mim, na pureza do meu ventre sagrado. Amém!” E adormeceu - com as mãos em concha no abdômen - estirada em uma rede, grávida de um fruto novo. Teria agora um amor para todo o sempre. O tempo correu. A mulher, em seu sagrado lar, sentada ao pé da pequena escada que dá para o jardim, perdia-se em lembranças doces. Um frio gelado arrepiou-lhes os pelos dos braços. Chegou o inverno.

INVERNO:

A velha mulher, agora, acariciava delicadamente a pele do rosto, e, através de sua beleza madura, recordava-se dum tempo florido, seguido de um tempo que ardia em chamas nas entranhas de sua alma. Pensou na chegada do filho - num outono remoto - e o quanto deleitara-se com as suas necessidades de mãe. Pensava também nos netos. O seu abençoado fruto também produzira outros novos frutos. Sentia-se feliz e realizada. Olhou para o céu e viu poucas estrelas – já era noitinha. Fixou os olhos na estrela mais brilhante e agradeceu ao Deus a vida serena que até ali tivera. Pouco tempo depois, sentiu o corpo desfalecer sobre o assoalho de madeira da varanda. Seus olhos semicerraram-se instintivamente: uma linda adivinhação de partida. Um suspiro curto e profundo fora a medida certa para a suave separação entre corpo e espírito da abençoada mamãezinha. Partiu: sem dor; sem mágoas. Levou apenas a essência que lhe era própria, E deixou para os seus frutos joias raríssimas lapidadas em forma de amor maternal. Fica em paz, oh, doce mulher!

Éd Brambilla. Crônica. OS INSTINTOS DE UMA FÊMEA E AS QUATRO ESTAÇÕES. 18/10/2014.

AUTORRETRATO

Quando descobri que estava "doente de amor" e não "amando", restaram-me duas opções um tanto óbvias: ser corroído por uma pseudo-esperança ou mergulhar no fundo de minha essência. Com muito esforço e tempo consegui direcionar meu olhar para a segunda opção; resgatei a mim mesmo, e, como um valente salva-vidas, com um braço enlacei meu pescoço e com o outro impulsionei corpo e Espírito para a superfície. Como no Mito da Caverna, de Platão, quase enlouqueci com a forte luz do dia; quase retornei várias vezes para os recônditos da alma. Ah! mas que força medonha se criou em mim com o passar dos anos! Foi como se todos os sentimentos bons e também os disfarçados de bons - de tanto se chocarem - tivessem criado uma nova potência em meu ser, cujo nome não se pode batizar. Tudo o que se transforma dentro de cada pessoa é inominável, pois se trata de uma redenção de um deus-não-sei-o-quê-interior e não-universal. É de cada um e para cada um essa tal potência; é como identidade digital, não existe uma que se iguale à outra. E foi a partir dessa consciência que meus olhos voltaram a sentir prazer com os raios do sol; que a minha Vontade, pregada com não sei quantos pregos de desesperança, de tanto esperar um socorro externo, rasgou-se toda para libertar-se, e, ainda que destroçada e sangrando nas arestas, arrastou-se heroicamente até encontrar um pequeno arbusto, que, apesar de sua pequena copa, sabia amar com veemência. E foi com esse sopro de amor que minha Vontade, aos poucos, conseguiu se regenerar, ainda que a parca sombra do valente arbusto tivesse de ser dividida com tudo o que estava doente em mim. E não eram poucos os sentimentos corrompidos que precisavam de um pouco de refresco, de um remendo aqui e outro ali. Enquanto meu Espírito ressonava, Vontade e Potência-Minha regeneraram todos os cortes e recortes de minha Essência e me devolveram o Todo que eu tinha abandonado por puro medo de duelar com a Vida. Foi então que, rindo de aleluia, tive um insight: a Vida jamais quis duelar comigo. Como é que se pode duelar com o que nos permite respirar?! "Insano” – refleti, "Eu ESTOU insano!..." E me pus a rir até doer-me o estômago. E comigo se puseram a rir todos os meus sentimentos, os meus medos, o Espírito... Até minha Vontade mijou-se toda de tanto gargalhar. Tudo girava num redemoinho de expurgação. Tudo o que era ruim, o redemoinho expurgava para uma espécie de labirinto onde aprisiona-se tudo aquilo que faz a vida sangrar em dor. Quando o redemoinho se dissipou, o que ficou foi o cerne puro do que me move. A Vida não havia me abandonado nem um segundo sequer. Ela sempre esteve dentro de mim. Eu é que, "doente de amor", passei a enxergá-la de fora para dentro. Eu estava literalmente fora de mim, e, ingenuamente, desafiava a minha própria vida. Ah! que alívio foi quando meu Espirito – adormecido – abriu os olhos num puro bocejo de uma pessoa que acorda e diz "Estou pronta de novo!" e percebeu que voltara a olhar de dentro para fora. "Estou salvo" – pensei. E tanto os olhos físicos quanto os metafísicos deixaram mais de não sei quantas mil lágrimas escorrem pela face e, da face, por todo o corpo – o físico e o metafísico. "EU CONSEGUI! NÓS CONSEGUIMOS!" – gritava a boca calada a tanto tempo. "Agora SOU novamente; Vontade-Minha está aqui dentro do meu peito, até então ressequido, fazendo o sangue jorrar incessantemente do coração para o meu TODO." – sussurrei para dentro de mim mais lentamente, mais convicto de que eu tinha finalmente me livrado da sobrevida e o que me movia novamente era a minha boa e velha companheira VIDA. Eu já podia caminhar conforme minha Vontade novamente
LIBERDADE é o nome do que me habita agora, e, dentro de mim, sou totalmente livre para ser o que a minha imaginação me permite ser.
Bem-vindas ao seu verdadeiro lar, Vontade e Força minhas!

Éd Brambilla. CRÔNICA. Ou seria uma Carta (?). AUTORRETRATO. 10.01.2016.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

"SÓ-XIXI"



Desesperado por um banheiro, entrei no primeiro boteco que vi.
-O banheiro é somente para clientes, moço!... Só posso entregar a chave se você consumir - foi logo dizendo o balconista do recinto.
-Tá,tá, tá!!! Me dá logo a chave e põe qualquer coisa aí para mim - respondi contorcendo tudo o que fica da cintura para baixo.
-Uma "coca"? - quis saber o rapaz.
-É... Pode ser... A chave, "pelamordedeus"!!
Enquanto eu me aliviava, reparei na mensagem (curta e bem grossa) abaixo do espelho:
"SÓ-XIXI"
Ufa, ainda bem que era "SÓ-XIXI", mesmo! Olhei por todos os cantos e NADA de papel higiênico. Papel-toalha para secar as mãos? Para quê?! Sequei as mãos nas laterais das calças.
Devolvi a chave para o balconista, paguei pela "coca" e agradeci pelo banheiro. Quando eu estava saindo do boteco, o cara gritou:
-Hei!!! Você esqueceu de beber a "coca"!!!
-Se você quiser, pode beber por mim... Eu não bebo refrigerante nenhum - respondi.
Segui meu rumo (aliviado) e o moço ficou feliz pela "coca-presente".


Éd Brambilla. Crônica. "SÓ-XIXI". 13/12/2016.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

A MACUMBA

ÉD BRAMBILLA




APRESENTA:








CAPÍTULO 1

O Problema




Damião, preocupado com o alto índice de inadimplência da clientela de seu escritório, resolveu apelar para a macumba. Foi ter com uma amiga que é muito amiga de um Pai-de-Santo:

-Ele é poderoso! – enfatizou a amiga.

No entanto, o poderoso Pai-de-Santo andava extremamente ocupado com a demanda de trabalhos por fazer. A solução: ele aceitou auxiliar Damião por telefone:

“Mizifio, suncê vai comprar uma garrafa de champanha da boa, um lenço vermelho de seda da boa, um maço de cigarros longos do bom, um frasco de perfume do bom, uma cumbuca de barro, um pacote de pipocas e uma vela metade vermelha e metade preta. Suncê vai arranjar um pouco de terra de cemitério e um pouco de água de poço” – orientou o homem através de uma entidade no primeiro contato telefônico.

Então lá foram Damião e Carmeli – a amiga – a uma loja de coisas macumbísticas. Damião comprou tudo por conta do escritório, afinal o trabalho era para salvar o negócio da ruína. O sócio de Damião concordou e tomou conta de tudo na ausência do aspirante a macumbeiro para que a empreitada fosse um sucesso.

-Pronto! Agora precisamos da água de poço e da terra de cemitério – concluiu Carmeli depois de entrar no carro de Damião com o kit-despacho.

Como estavam perto de um cemitério, aproveitaram a viagem. Terra conseguida. Faltava apenas a água, o que foi muito fácil, pois a mãe de Damião ainda usava um antigo poço d´água.

Novo telefonema para o Pai-de-Santo:

“Suncê vai escrever os nomes de todos os clientes inadimplentes em pedacinhos de papel, vai colocar tudo dentro da cumbuca de barro, vai cobrir com a terra do cemitério e misturar tudo com a água do poço. Depois suncê vai encontrar uma ponte que passa por cima de uma linha de trem. Debaixo da ponte, do lado da linha do trem, suncê vai estender o lenço vermelho, abrir a champanha e o frasco de perfume, acender os cigarros e a vela preta e vermelha. Depois vai espalhar a pipoca ao redor de tudo” – instruiu o poderoso Pai-de-Santo.

Damião ficou desconfiado disso tudo, afinal sua intenção era boa. A ideia era fazer uma macumba para que os clientes inadimplentes prosperassem em seus negócios, e, com isso, acertassem suas dívidas com o escritório.

-Esses apetrechos todos não são muito pesados para uma macumba do bem? – quis saber Damião.

-Não se preocupe, esse Pai-de-Santo é muito poderoso; ele sabe o que está fazendo – respondeu a amiga.

Como Damião não entendia nada de feitiçaria, deu de ombros e continuou com a saga macumbérica.

Foram dois dias inteiros gastos com o despacho.

Mais uma orientação do Pai-de-Santo: o trabalho precisava ser realizado exatamente às seis horas da tarde de uma sexta-feira.

E mais uma vez lá foram Damião e Carmeli. Posicionaram-se debaixo de uma ponte, ao lado de uma linha de trem. E, por Deus!, havia uma multidão sobre a passarela que resolveu parar para assistir ao trágico ritual. Sim, trágico! Depois de tudo disposto sobre o lenço vermelho, conforme instrução do ‘poderoso Pai-de-Santo’, era o momento de acender os cigarros e a vela. Carmeli encarregou-se de abrir a champanha e a entoar as cantigas para os orixás. O tempo estava incrivelmente seco e quente até aquele momento. Nem brisa soprava. E não é que mais que de repente uma ventania se formou do nada! O vento tombou o frasco de perfume em cima do lenço vermelho, esparramando todo o líquido inflamável, que chegou até à chama da vela, que também havia tombado. Santo Deus! Damião, na pressa de terminar logo tudo aquilo, colocou uns dez cigarros de uma só vez na boca e acendeu tudo ao mesmo tempo. Olhou para Carmeli e ficou horrorizado. Ela estava com uma fisionomia muito estranha. Era como se estivesse possuída. E estava mesmo! Desesperado, o pobre Damião cuspiu cigarros para todos os lados, agarrou no pescoço da possuída e, sacudindo-lhe a cabeça, pôs-se a gritar:

-Sai desse corpo, agora, espírito zombeteiro! Eu ordeno!

E nada. Em cima da ponte, a multidão também gritava:

-Macumbeiros, macumbeiros!



CAPÍTULO 2

Solução ou Mais Encrenca?

Damião lançou mão do celular e ligou para o Pai-de-Santo, em busca de socorro:

“Suncê vai fazer tudo o que eu disser” – ouviu do outro lado da linha. Não da linha do trem, minha gente! Do telefone.

Orientado pelo personal-feiticeiro, Damião foi falando um monte de dizeres estranhos. E parece que deu certo. Carmeli foi voltando ao normal. E Damião também. O problema é que o fogaréu havia tomado conta do despacho e já estava alcançando o matagal que ficava à beira dos dormentes da linha do trem. A tragédia teria sido muito menor se Damião não tivesse tido a brilhante ideia de apagar o incêndio com a champanha da boa.

Meu Deus! As Labaredas de fogo, alimentadas com a champanha, voaram para todos os lados, inclusive sobre Damião. E a multidão se ria – com cãibras no estômago – dos patetas macumbeiros. E todos gritavam “Macumbeiros de araque!!!” sem a menor cerimônia. A prestimosa amiga, então, arrancou o paletó de contador de Damião e o usou para combater o fogo. Deu certo, Oh, graças! Saíram do local completamente resignados, frustrados e chamuscados.

-Não olhe para trás – dizia Carmeli.

Damião obedecia sem pestanejar, não por medo do desastroso despacho, mas por conta da imensa vergonha que tomava conta de si naquele momento. Entraram no carro sob as gargalhadas da multidão. Relataram tudo ao 'poderoso Pai-de-Santo', que simplesmente se riu da situação e disse aos dois atrapalhados que teriam de fazer tudo de novo.

-Vá para o inferno, demônio de Satã!!! – foi tudo o que Damião conseguiu dizer antes de dar as costas e entrar no carro proferindo um monte de desaforos.



CAPÍTULO 3

O Desfecho


Pois bem, macumba mal feita precisa ser desfeita! E lá foram mais uma vez Damião e Carmeli atrás de consertar o desastre. Desta vez, procuraram uma Mãe-de-Santo. Resignados e desconfiados, pediram referências sobre a mulher para terem certeza de que se tratava de uma macumbeira do bem.

E a ladainha continuou:

“Suncê e sua amiga vão ter de ir ao cemitério pedir perdão para as almas que eram donas das terras que vocês pegaram sem pedir. Suncê e sua amiga vão ter de acender sete velas de sete dias durante sete semanas para essas almas lhes concederem perdão. Suncê vai ter de dar um banho de guaraná e pipoca no carro para espantar os espíritos oportunistas. Depois disso tudo, suncê e sua amiga ficarão livres da maldição” – concluiu enfim a Mãe-de-Santo.

Damião ficou ressabiado em fazer outro ritual para quebrar a macumba desastrosa e considerou melhor deixar tudo como estava.

Bomba!

E não é que os clientes inadimplentes ficaram ainda mais inadimplentes? E o pior: os clientes adimplentes passaram a atrasar os honorários também.

-Ah, não!!! – gritou raivosamente Damião.

Novamente foi ter com a amiga. E lá foram os dois rumo ao cemitério. Ajoelhados no local que serve para a oferenda de velas para os mortos, Damião implorava em voz alta:

-Perdão, almas queridas!!! Perdão!!!

A amiga, toda encolhida de vergonha, resmungava:

-Não precisa berrar, Damião! As almas não são surdas. Você está me fazendo passar vergonha.

E estava mesmo. Havia um monte de gente no oratório se rindo da situação. E foi assim que, durante sete semanas, Damião e Carmeli precisaram acender sete velas de sete dias para livrarem-se da maldição da macumba mal feita. Ah, e o pobre Damião levou meses para livra-se das pipocas e do guaraná que jogou dentro do carro. O guaraná e a pipoca teriam de ter sido lançados sobre o carro, não dentro dele.

Que atire a primeira pedra quem nunca recorreu a uma macumbinha. E não se engane: SIMPATIA nada mais é que uma definição usada por aqueles que têm medo de usar a definição macumba.

De macumbeiro e louco todo mundo tem um pouco.


______________ F I M _____________



Éd Brambilla. CONTO. A MACUMBA. 2013.

SAÚDE E BEM-ESTAR



Caruaru tem semana para discutir suicídio

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Estudante de Psicologia na Universidade de Recife, Matheus C. Richárd defende que campanhas educativas de prevenção ao suicídio são ferramentas eficientes e alega que o suicídio deve ser olhado como um problema de saúde pública.

Na próxima quinta-feira, 15 de Dezembro, Richárd Costa estará na radio de Caruaru pela manhã e, na tarde do mesmo dia, estará no programa DIVÃ, comandado pelo psicólogo e jornalista Jardiel Alves, na radio Altinho FM 104,9 (ou  www.altinhofm.com.br). Richárd Costa falará de sua vida pessoal e do novo projeto do senador Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN), que aguarda indicação de relator na Comissão de Assuntos Sociais (CAS).

O estudo e a discussão do tema "suicídio" é uma das formas mais eficientes de se promover a prevenção, que se faz possível somente quando a população, os profissionais de saúde, os jornalistas e governantes têm informações suficientes para conduzir as medidas adequadas - e ao alcance - nessa frente.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

TEMPO DE CARACOL



E novamente já é tempo de "caracol"... Ontem, chegando da UNIP, tinha um serzinho "caracoleando" no "hall" do meu apartamento. Nos apresentamos:
-Boa-noite, senhor caracol! Eu sou o Éd. Prazer em conhecê-lo!
-Boa-noite, humano! Eu sou o Caracoaldo e vê se não me amola, pô!
-Desculpa, Caracoaldo! "Rola" uma “selfie” pelo menos?
-Uma só e vaza daqui! Tenho mais o que fazer!
Eita, até caracol anda mal-humorado!


Éd Brambilla. Crônica. TEMPO DE CARACOL. 24/11/2016.



AH, DONA MERCEDES!



Minha mãe estava com um problema: o pé esquerdo inchado e dolorido. SÓ O ESQUERDO!
-Vem cá, Dona Mercedes, vou dar um jeito nisso!
Algum tempo depois...
-Prontinho, aparentemente está bem melhor. Ainda dói?
-Ai, Divaldo, ficou uma beleza!
-Que ótimo, mãe! Agora eu quero beber um café.
-Mas e o outro pé?!
-Mas não era só o esquerdo que estava ruim, mãe?!
-Era... Só que agora o outro começou a doer, também. Que esquisito, né?!
Olhei pra ela com cara de quem diz: “Hum, sei bem!" E ela olhando pra mim com uma cara do tipo "safadinha nível máximo".
-Vamos ao outro pé, então! (mãe pode tudo).
Mais algum tempo depois...
-Pronto, Dona Mercedes! Os dois pés ficaram ótimos agora!
-Era bom fazê tudo, né? Mas já tá bom; senão você vai chegá tarde na casa da Lúcia. (referindo-se a Luciana, minha irmã).
-Concordo, mãe! Você sempre está com a razão. Preciso mesmo ir.
E a cara do tipo "safadinha nível máximo" lá... Só na expectativa.
-A senhora vai em casa, que lá eu tenho maca… Aí eu faço tudo, tá bom?
Ela: CARA DO TIPO "ME DEI BEM!"

Éd Brambilla. Crônica. AH, DONA MERCEDES!. 27/11/2016.

ALMa FeLiNa

Tenho ALMa FeLiNa:
O olhar no horizonte;
Cabeça erguida;
Sempre mais longe;
A decisão comedida;
Espreito no escuro
As oportunidades que
A vida oferece;
Abraço o que posso
E o que me apetece;
E o que não quero
Ou o que não quis,
Não é ou não era pra mim.

Éd Brambilla. Poesia. Alma Felina. 30/11/2016.


sábado, 19 de novembro de 2016

PARANOIA

ÉD BRAMBILLA

APRESENTA:




Capítulo I


Maria Felicitá quer ser “normal”

Nesta história, o nome da cidade onde a trama se desenrola é Penápolis. É que Penápolis vem de pena – creio eu. E pena é bom pra fazer cosquinha na barriga da gente, porque rir é bom demais. E a risada frouxa da cosquinha é a melhor coisa do mundo porque é uma risada arrancada de espontâneo.
No bairro do Pó-de-Mico, em Penápolis, vive Maria Felicitá, que se ri de cócegas, de tombo alheio, de gente que escorrega na casca de banana, de gente peidorreira, de mico-leão-dourado que vive na eminência do “acabou-se o que era doce”… De tudo a moça se acaba de tanto se rir.
Maria é pura alegria. Em velório, ela costuma rir com vontade. Mas é uma vontade cheia de responsabilidade: ela não ri do defunto não. Isto é que não. Maria tem medo de assombração. Só ri das situações estereotipadas de velório superficial onde ninguém nem está aí com o morto. Quando o velório é sério, Maria fica séria também.
Ocorre que de um tempinho pra cá Maria Felicitá vinha meio incomodada com tanta alegria. Ela andou lendo numa revista de psiquiatria sobre transtornos obsessivos compulsivos, bipolaridade, síndrome do pânico, depressão, ansiedade, aracnofobia, homofobia, gatofobia, gentefobia, tudofobia... Todos esses transtornos que sempre existiram e só puseram nomes recentemente.
-Gente, quanta gente transtornada! – disse transtornada com tanto transtorno a alegre Maria para si mesma.
E agora Maria Felicitá se pôs ressabiada achando que é anormal. Pior: enfiou na cabeça que sofre de “exclusão social transtornante”. Isto lá na maneira de pensar dela.
Num domingo bem cedinho lá foi Maria na banca do Zé Debochado comprar o novo número da tal revista que fala de psiquiatria e de todos esses assuntos do mundo dos miolos. E tinha reportagem falando de uma famosíssima psiquiatra, a doutora Zigmunda Froida, que é especialista em desenvolver todo tipo de transtorno já nomeado e até transtorno que ninguém nem botou nome ainda. Mas a doutora era perita em desmiolices e batizou tudo quanto foi transtorno pagão.
-Dois mil reais custa uma consulta com a dona Froida?! – fez Maria Felicitá toda espantada.
Mas Maria não podia esperar não. Juntou uma televisão de led, um microsystem, um micro-ondas, uma secretária eletrônica, um mico-leão-dourado e um I-Pod G8 Três Vírgula Quatro Polegadas e Meia. E tudo ela vendeu para o muambeiro Tião Sorriso por mil e oitocentos reais. Tião Sorriso é muito esperto. E Maria muito besta.
-Não tenho medo de pechinchar não – falou Maria para as paredes. –Dona Froida vai me dar um desconto que eu sei. Ninguém é bobo pra dispensar bufunfa assim não.
E lá se foi Maria atrás da doutora Zigmunda.


Capítulo II


A consulta com a Doutora Zigmunda Froida

Na recepção da psiquiatra, Maria Felicitá sentou-se numa poltrona imitando um sapato de salto alto. Ela gostou muito. E reparou num quadro na parede à sua frente.
Santo deus! O que será aquele rabisco comprido que tem um pé tão grande e ainda por cima tem um pé só?!” – pensou Maria toda curiosa e pasmada. “Saci não é não porque não tem gorro vermelho nem cachimbo na boca” – concluiu nos alegres miolos.
Maria não tinha aprendido nada sobre artes. Ela só tinha aprendido a rir de tudo. Nunca falaram do Abaporu pra ela. E o retrato era mesmo o Abaporu da Tarsila do Amaral, que foi casada com o Oswald de Andrade, mas o casamento nem deu muito certo não.
Nisso a secretária da doutora Froida, a Zefinha Rabugenta, mandou Maria entrar na sala da psiquiatra porque era a vez dela. E Zigmunda não podia perder tempo. Isto é que não.
-Acha!... Tempo é dinheiro... Ninguém tem tempo pra perder com gente alegrinha assim não! – disse Zefinha toda desacreditada com a alegria de Maria.
E lá foi Maria de alegrinha ter com a grandessíssima entendedora de cabeças.
-Entre, darling – fez a doutora. –Deita no divã e vai logo desembuchando o que é que você tem, meu bem!
Maria obedeceu rapidamente porque se lembrou da essência das palavras de Zefinha Rabugenta: “Tempo é dinheiro e ninguém tem tempo pra desperdiçar com gente alegrinha não”. Só ela, Maria, é que gostava de ser feliz.
-Não tenho nada não, dona Froida!
-Não?! – espantou-se a doutora.
-Mas vim aqui pra ver se arranjo alguma coisa qualquer – emendou sem demora a moça que padecia de felicidade.
-Hum... Vejo que você é ajuizada, baby – disse satisfeita a psiquidoida.
-Mas só tenho mil e oitocentos reais... Mais eu não tenho não!
-Oh, honey! Não se preocupe não... Sempre tenho uma coisinha ou outra que cabe direitinho no bolsinho de clientinho brasileiro. Tenho sim!
E lá foi a doutora espertíssima na direção de uma estante repletinha de tudo quanto era transtorno mental.
-Como é a sua primeira vez, litle girl, vamos devagar porque devagar se vai ao longe – advertiu a médica.
E falou isso coçando o queixo com a mão esquerda enquanto a mão direita tateava as prateleiras das delícias transtornativas.
De repente a psiquiatra fez: -Oh!!!
-Encontrou, doutora??? – perguntou Maria já toda imbuída só com a iminência de um transtorno que lhe entristecesse a alma e a incluísse na sociedade dos transtornados.
-ESQUISIOTEPATIA TRIPOLÁRICA SORUMBÁTICA!!! – gritou com muita satisfação na voz a inventora de doidices.
-Que diabo é isso?! – quis saber Maria toda escalafobética.
-Um transtorno que criei já vai algum tempinho... Só estava esperando a pessoa certa pra prescrever.
-Eu que sou toda errada sirvo pra ser a pessoa certa, dona Zigmunda? – ressabiou-se Maria Felicitá no fazer da pergunta.
-Oh, of course que sim! – atestou a doctor que é da terra do Tio Sam e aprendeu a falar português pra escarafunchar com êxito as cacholas do Brasil.
E veio a prescrição:
-Um comprimido de manhã bem cedinho e um bem à noitinha, antes dos braços de Orfeu. E assegurou bem para Maria:
-Honeyzinha, não te preocupe com os efeitos colaterais dos primeiros quarenta dias do tratamento não, que são alegria triplicada e sentimentos de amor exagerados.
-Ai, meu deus!... Não corro o risco de morrer com tanta felicidade, dona Froida?!
-Que nada, Darling!... É só no começo… Depois de quarenta dias, vocezinha sentirá uma tristeza e uma melancolia tão incomensuráveis que nunca mais se lembrará da menor alegria que possa existir neste mundo de gente desregulada pela felicidade.
-Oh, doutora Froida! Que alegria! Não é todo dia que se encontra uma especialista em esquisitices.
E Maria voltou pra casa, lá no bairro do Pó-de-Mico, toda contentinha porque em breve seria tão esquisiopatética como toda aquela gente da revista de psiquiatria.


Capítulo III


Morre, Maria, Morre de Alegria!

Nos primeiros vinte dias de tratamento, Maria Felicitá não se aguentava de tanto se rir. Se mijava toda de tanta alegria.
Com trinta dias, a moça estava insuportavelmente feliz. Achou até que morreria.
Pelo menos morro feliz”, matutou na cabeça louríssima.
Quando se completaram os quarenta dias do tratamento, a doida, no mais alto clímax de felicidade, já pedindo besouro em namoro, disse para si mesma com muita histeria:
-Enfim, amanhã ficarei SO - RUM - BÁ - TI - CA!!!
Qual! Ficou nada!
Na madrugada do quadragésimo para o quadragésimo primeiro dia, o coração de Maria explodiu de tanta euforia. Morreu com os olhinhos arregaladinhos e bem brilhantes. A boca parecia que tinha triplicado os dentes de Maria, de tanto que ela sorria.
A doutora Froida soube do acontecido e foi consultar as bases. Tinha prescrito comprimido de “cannabis sativa” para Maria em vez de comprimido para ESQUISIOTEPATIA TRIPOLÁRICA SORUMBÁTICA.
E assim, era uma vez Maria Felicitá, que era toda alegria e morreu de overdose de tanto gozar de felicidade e sonhos de orgia.


_________ F I M ________




Éd Brambilla. Conto. PARANOIA. 17.09.2015.


TODOS OS DIREITOS AUTORAIS RESERVADOS.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

A NATUREZA E A (DES) CONSTRUÇÃO DO SUJEITO


Desde que o mundo é mundo, o bicho-homem, para se construir como sujeito e materializar suas ideologias, depende, incontestavelmente, da natureza que o cerca. E, para atingir seus objetivos, desconstrói e agride indiscriminadamente essa mesma fonte que o alimenta. A necessidade do Homem em agregar valores subjetivos e coletivos a sua existência vai de encontro à necessidade da Natureza de existir em sua plenitude e direito; não se construiu ainda um meio termo para que Homem e Natureza coexistam de maneira sobretudo mutualista; o parasitismo ainda é a mola-mestra unilateral – por parte do Homem – dessa relação. Nesse jogo de vaidades para impor seu poder de espécie privilegiada, o Homem caminha produzindo informação, tecnologia e valores numa eterna ressignificação de seu egocentrismo. No entanto, e apesar de todo o seu notável esforço, o Homem, quanto mais apregoa a sua evolução e magnificência existencial, não se dá conta de sua miserabilidade solitária intrincada na alma: o Homem é solitário em si mesmo porque enxerga a transformação em seu exterior e não se dá conta de que a transformação é em si mesmo, em sua essência. No final de tudo, depois de toda a experimentação de prazer, não lhe resta nada mais a não ser questionar-se: Por quê? Para quê?

Para arrematar este texto, tomo emprestada uma visão – ainda tão moderna e pertinente ao tema aqui tratado – do filósofo alemão, Friedrich Wilhelm Nietzsche, que escreveu em sua obra, "Assim falava Zaratustra":

(...) O homem e a sociedade vivem na hipocrisia, à sombra de valores que não correspondem às aspirações do ser humano, porquanto marcados e conduzidos por um conjunto de leis, costumes e tradições que se já se comprovou, além de desgastadas pelo tempo e pela maldade dos homens, aleatório e inútil (...)”.


Éd Brambilla. CRÔNICA SOCIAL. A NATUREZA E A (DES) CONSTRUÇÃO DO SUJEITO. 14/11/2015.

Imagem: retirada da web.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

ALMaS DÍSPaReS

Éd Brambilla apresenta:


    

       Capítulo I

Apresentações: Antônio Descrente & Maria Esperança

Trata-se de um casal incomum: ela, que aos trinta e seis anos de idade, nunca havia experimentado o amor que paralisa e faz com que a vida se mostre cheia de novidades, encontrou nele a esperança da plenitude; ele, que aos trinta e oito anos, vivera apenas de amores fugazes, encontrou nela a falta de aviso prévio do amor que tantos vislumbram. O fato é que de quando em quando ambos mergulhavam em suas entranhas em busca de novas emoções. No entanto, o ar lhes faltava e os dois voltavam à superfície envoltos apenas por prazeres efêmeros.

Mergulhar no profundo do que se é e buscar o que verdadeiramente se quer exige esforço de uma retidão precisa.

O nome da mulher poderia ser o nome de qualquer mulher sonhadora e esperançosa: dou-lhe o nome de Maria Esperança; ele, que até então não acreditava no amor, batizo-lhe agora com o nome de Antônio Descrente.

Maria Esperança, quando criança, vivia de pequenos sonhos roubados de histórias fictícias dos livros que lia. Quanto aos sonhos grandes, ela tinha pavor de tomá-los para si. Faltava-lhe ambição. E havia nela o inoportuno medo de parecer criminosa demais, fato que lhe arrepiava toda, como se entre o roubar pouco e o roubar muito houvesse uma extraordinária misericórdia. Já era difícil para a menina viver os pequenos sonhos, e, como julgava sua alma pequena demais, não cabia ali uma história de grandes acontecimentos.

Antônio Descrente, por conta de severas complicações de gestação, nascera de um parto cuja mãe oscilava entre um suspiro de vida e outro de morte. Se Antônio fora presenteado com a vida, foi por pura incondicionalidade do amor materno. E como castigo, despercebido no silêncio daquilo que não se ousa procurar uma resposta, teve a sorte de sua criação lançada a um pai incorrigivelmente machista e mulherengo.

A sorte, muitas vezes, é de uma sordidez de dar nó na garganta; ela é quem faz as escolhas, apesar de todo o livre arbítrio que se julga ter. Quando adolescente, o imberbe menino olhava para as meninas através de olhos lubrificados com testosterona; vislumbrava a fêmea e não a mulher.

O rapaz atravessara o auge da juventude acreditando que poderia dar prazer a toda mulher que lhe mostrasse interesse. E nesta crença, amarrada com nó-de-marinheiro, em dar o que nunca teve, não lhe cabia na essência que sofria de uma miserável pobreza de felicidade. Era involuntariamente solitário.

A solidão mais triste é aquela que habita na alma com uma inconsciente vontade do que se quer. E o invisível do que se quer prolonga-se em flagelo de punição. Antônio não tinha consciência do flagelo que carregava em procissão para pagamento de promessa não feita.


           Capítulo II
  
Maria “rebelada”

Em uma tarde de domingo – de uma primavera esquecida –, Maria sentiu, num repente de surpresa inevitável, um comichão a lhe corroer o caráter. Brotava ali uma necessidade alimentada com madeira seca que precisava ser consumida através do que há de mais carrasco no fogo: decidira tornar-se uma criminosa digna das honrarias que somente os que sentem a consumição do amor poderiam compreender. Era o tardio momento de viver uma história em cores, tons e sons a enveredar o mais secreto de seus desejos. Foi então pela primeira vez ao cinema. Os livros obrigavam-na a compor cenários. E agora ela queria o cenário pronto. Era hora para um assalto em grande estilo; e o prêmio era a essência da heroína de um cordel. Maria idolatrava romances recheados de amores impossíveis que enfrentavam obstáculos tortuosos até alcançar a possibilidade.
A súbita obsessão em tomar posse de história alheia era, para Maria, uma espécie de fuga das ciladas do amor. Filha única, de pais que mal se amavam, crescera ouvindo da mãe: “Jamais confie no amor de um homem, minha doce menina!” Daí o fato de tornar-se - desde pequenina - uma ladra de amores com finais felizes.
Maria debulhou-se em lágrimas logo nos primeiros instantes do filme. O choro saía lento, de um sofrimento soluçado. A expressão de seu rosto era de uma gravidade de espera de notícia de falecimento de quem se quer muito. Eis que ela perdera o intangível que reside na sensação daquilo que se vive pela primeira vez. Era novidade demais. Estava no cinema e perdera-se em não se dar conta de que estava. Fora inóspita para si mesma. E a crueldade do tempo consiste no fato de não voltar atrás. É uma regra necessária para que toda história não se torne repetitiva demais. Cada um que se preocupe em cuidar do próprio tempo.


Capítulo III

Antônio & Maria: Insights

Numa rua estreita, ornada dos dois lados com casas estreitas e apinhada de pessoas de mentalidades estreitas – e tudo o que existe de mais estreito na busca do prazer comprado –, estava Antônio. Ele entrou numa dessas casas. O espaço, com uma iluminação opaca e todo atordoado com o branco ofendido da fumaça de cigarros, parecia mais um crematório. Ali, no balcão do puteiro, Antônio sentou-se num banco de vime, cujo estado denunciava o fim de seus dias. Ele espalmou as mãos sobre o balcão, ainda cheio de copos sujos esquecidos por assíduos clientes - jovens e velhos, fossem eles solteiros ou casados. A sua frente, numa prateleira inteira abarrotada com sonhos de ébrio, bailavam, libidinosas, garrafas de todas as cores e formatos.
Antônio estava no segundo copo de uísque e, quando pensou em pedir o terceiro, uma moça, com os cabelos de um ruivo mentiroso e um vestido que a difamava logo no primeiro instante, cumprimentou-o toda lânguida. Também ela queria um copo de uísque, que pretendia pagar com sua companhia. Ele, de súbito, compreendeu e aceitou o feudal da situação. Antônio, a esta altura de sua miserável vida amorosa, sentia-se desanimado demais para as conquistas batalhadas e merecidas. Seria este fato um sinal de que ele começava a perceber a miserável falta daquilo que nunca havia experimentado, o amor?
Em seu modesto quarto de pensão, Maria estava em dúvida sobre qual vestido usaria em seu aniversário de trinta e seis anos. "Preto ou verde?" – pensava consigo mesma. Para dizer uma verdade toda banhada em ofensa, não importava a cor do vestido. Ela estaria só. Mais uma vez só. Escolheu o verde. Todo aniversário era o mesmo ritual: arrumava-se toda, fitava-se no espelho, procurava por possíveis novas rugas, apanhava a bolsa e ia comemorar a data em companhia de algum novo herói cinematográfico. Quando chegou à porta do cinema e se deparou com o cartaz do filme anunciado, um lampejo de memória indesejável atordoou-lhe a mente: já tinha vivido aquele amor. Maria, em toda a sua vida, jamais repetira um romance, e, naquele momento, pela primeira vez, não sabia o que fazer. Seria o prenúncio da urgência de morte do abstrato em prol do concreto?


Capítulo IV

Cupido

Antônio acordou no começo da tarde ainda com o cheiro das coisas estreitas da noite passada. Banhou-se na intenção de lavar seus pecados, vestiu-se com discrição e decidiu que naquela noite encontraria a sua outra metade nesta vida.
Do outro lado da vida de Antônio, estava Maria, que, neste mesmo dia, acordara cedo, como de costume. Também ela se banhara – mas sem intenção de lavar “pecados da carne”; estes Maria não os tinha.
Já era noite. As luzes artificiais, aos poucos, emprestavam a sua magia à cidade. Antônio recostou-se num banco de uma pequena praça em frente a uma catedral e se pôs a meditar sobre o que queria para o futuro.
Do outro lado da rua, Maria esperava por um táxi. Estava segura de que naquela noite passaria a ser mais “Maria” e menos “Esperança”.
Acontece que nem tudo o que se quer acontece como se quer – o que pode ser uma deliciosa surpresa.
Uma cadelinha, já cansada de sua condição – não de canina, mas de miséria –, decidiu atravessar a rua; provavelmente em busca de uma novidade que lhe mudasse o destino. E essa novidade havia de ser encontrada do outro lado. O atropelamento fora inevitável. A pancada não foi tão forte, apenas o suficiente para que a canina perdesse os sentidos. Maria – toda comovida por natureza – correu em direção à pobrezinha porque sempre amara os bichos. Sentou-se na calçada, retirou da bolsa uma garrafa com água e banhou a cabeça da bichinha. A cadelinha levantou a cabeça e sorriu de gratidão por Maria. 
-Ela ficará bem.
Maria ergueu os olhos para ver de onde vinha a voz. Deparou-se com Antônio.
Naquele momento a mulher teve a certeza de que tudo ficaria realmente bem. Antônio ofereceu-lhe ajuda. Disse-lhe que morava a menos de quinhentos metros dali. Maria aconchegou a cachorrinha no colo e levantou-se com a ajuda de Antônio. Os dois se apresentaram.
Alguma coisa no olhar de ambos dava a certeza do que estavam procurando.


       Capítulo V

Mãos Entrelaçadas e Corações Palpitantes

Já em sua casa, Antônio pegou um pouco de algodão, uma pequena vasilha com água quente e um frasco de mercúrio. Levou tudo para Maria, que o esperava na sala com a cachorra. Esta também tinha um brilho diferente no olhar. Depois dos primeiros socorros, Maria pediu a Antônio que trouxesse um pouco de alimento para a acidentada.
-Repare como a pobrezinha come cheia de aflição – disse Maria toda terna.
Antônio sorriu comovido.
Algum tempo depois, Maria assustou-se com as horas e resolveu que iria embora.  Antônio convidou-a para um passeio no dia seguinte. Ela assentiu com a cabeça.
Durante a madrugada, que se fizera eterna nesta noite, Antônio e Maria, cada qual em seu canto, suspiraram possibilidades que emergiam de sutis faíscas de desejos.
Na tarde do dia seguinte, num barzinho de esquina, lá estavam Maria e Antônio – não era o lugar mais sofisticado da cidade, mas o lugar onde nasceria a felicidade de duas almas díspares e prontas para o amor.
Maria estava tão cheia de futuro que aquele lugar imbuíra-se da mais pura e bela magia.
Antônio chegou com um atraso de dez minutos. Sentou-se de frente para Maria e estendeu suas mãos em busca das dela. Entrelaçaram-se as mãos (trêmulas, suadas, quentes, esperançosas).
-E a cadelinha, como está? -  perguntou Antônio.
-A pobrezinha já se sente toda minha – respondeu Maria. -E eu já me sinto a sua única dona.
O que Maria quis dizer – nas entrelinhas – era que o animal havia encontrado uma mãe, mas faltava-lhe um pai.
Antônio, às vezes, era limitado para entender algumas sutilezas.
Quando o garçom chegou com as bebidas, Maria lançou um olhar em direção ao outro lado da rua. Notou que outro cachorro tentava atravessá-la. Ela sorriu e pensou: “Será que teremos outro socorro a prestar?” Porém, desta vez, não se tratava de um animal tão corajoso.
-Encontrou um nome para a sua mais nova companheira? – quis saber Antônio.
-Sim! Seu nome agora é Lilica.
Subitamente, como num susto, Antônio engasgou-se com um gole de cerveja. E ficou feliz ao se dar conta de que não se tratava de um susto de medo, mas sim de contentamento. Neste momento, ele compreendeu que não era mais sozinho.
Maria fora mais sagaz. Já sabia desde o primeiro contato.
Se o casal encontrou a felicidade? Entrego essa tarefa a cada leitor. E aviso de antemão: cada um que se responsabilize por seu desfecho.
Avaliem os contextos e sejam cuidadosos.


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Éd Brambilla. ALMaS DÍSPaReS. Pequenos Romances. 2015.